Categorias: Opinião

Produtos de origem animal “mais éticos” são um engodo

Foto: Selene Magnolia

O que é um produto de origem animal “mais ético”? É um termo que, além de pressupor uma “ética” em aperfeiçoamento, é usado em referência a produtos que são concebidos sob uma propaganda de que “não há nada a esconder”, que “há transparência e simplificação no sistema de produção” e que têm o “bem-estar animal” como prioridade.

Todas essas alusões são capciosas porque são “verdades de um sistema” que não vê problema em associar “exploração” e “ética” como se pudesse existir uma “ética da exploração” em um contexto essencialmente arbitrário. Ademais, se houvesse transparência, o primeiro passo seria permitir que os consumidores tivessem acesso a todas as etapas de produção.

Então poderiam ver-se diante do paradoxo de uma associação que só é possível como propaganda, “representação de indução”, não como realidade. É perceptível que esse sistema não abre espaço para contradições, se ocorre, não é por sua iniciativa, porque não está apenas interessado em oferecer “uma possibilidade de consumo”. Ele a transforma em suposta “necessidade”, em algo que deve ser assimilado não como mero interesse de consumo, mas uma urgência.

Ao declarar suposta responsabilidade meritória sobre “sua produção”, que não pode ser verificável pelo consumidor, logo isso ocorre a partir de representação oficial em convergência a esse sistema, a indústria de proteína animal transfere ao consumidor a tarefa de abraçar essa produção pela “ética da oficialização”.

Mas não porque é “ética”, e sim porque utiliza a sua autoridade de parte oficial de um sistema para vender suas crenças que precisam ser fortalecidas pelos consumidores. Será que posso dizer que a realidade dos animais é outra em um sistema que se autodefine como “mais transparente e mais ético”?

Vejo nisso impossibilidade porque um animal criado para gerar produtos é ele próprio identificado pelo sistema como produto, e sua vida é condicionada à geração de produtos, num processo contínuo de substituições/mortes fundamentadas no custo/benefício.

Crer em “produção ética” como possível é negar-se à realidade de que os termos criados para produtos de origem animal nunca são sobre os animais, mas sobre engodos institucionalizados que sirvam a uma consciência desinteressada em mudanças transformadoras de hábitos.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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