Categorias: Opinião

Qual animal ficaria feliz em ser consumido?

Prestei atenção hoje em um balde com frango frito que traz a imagem de um frango sorridente em posição confiante, fazendo um sinal positivo para o consumidor. Podemos interpretar também que o animal está apontando de forma entusiasmada para o conteúdo do balde. Ou seja, frango frito.

Nisso há uma mensagem de que o frango está feliz por alguém comê-lo, que o frango está dando o seu consentimento, que o frango deseja ser engolido, que o frango está maravilhado com a ideia de ser devorado, etc. Há diversas possibilidades convergentes, não? Mas isso faz sentido? Como? Imagens como essa, do animal celebrando o que é impossível sem a violência contra ele, são muito utilizadas ainda hoje.

Consumidores não veem problema nisso porque gostam dos reforços em relação aos seus hábitos, mesmo que sejam fundamentados na irrealidade, já que não pagam apenas para consumir tais produtos, mas também pelo que ajude a garantir que esse desejo não seja perturbado; o que é também do interesse de quem os oferece.

Pelo óbvio, consumidores não gostariam que o desenho no balde fosse de um frango recém-degolado e sangrando, com o pescoço mole e os olhos vítreos. Mas também não podem contestar que não há morte para que haja frango frito. Como poderiam? Apenas não querem ser lembrados disso.

Ainda assim, eles veem sentido na ausência de sentido do “frango feliz”, porque ele é a forma não humana do desejo humano, é a forma fantasiosa da aceitação (que é preterida como imposição), que não existe partindo dos frangos, mas que promove a ideia de que o frango nasce para isso e reconhece que ele é para isso. Quem nunca ouviu alguém dizer que os animais existem para nos servir? Isso é explorado de forma ridicularizante na promoção de produtos de origem animal.

Portanto o que também acho válido como reflexão é que há um desrespeito em relação a esses animais nesse tipo de propaganda, porque por meio dessa ilógica exposição há uma negação de um reconhecimento real do animal, mesmo quando já privaram-lhe de tudo.

Observação

Faço a referência como propaganda porque não é apenas sobre o produto, mas também sobre valores em oposição aos interesses do animal.

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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