Prestei atenção hoje em um balde com frango frito que traz a imagem de um frango sorridente em posição confiante, fazendo um sinal positivo para o consumidor. Podemos interpretar também que o animal está apontando de forma entusiasmada para o conteúdo do balde. Ou seja, frango frito.
Nisso há uma mensagem de que o frango está feliz por alguém comê-lo, que o frango está dando o seu consentimento, que o frango deseja ser engolido, que o frango está maravilhado com a ideia de ser devorado, etc. Há diversas possibilidades convergentes, não? Mas isso faz sentido? Como? Imagens como essa, do animal celebrando o que é impossível sem a violência contra ele, são muito utilizadas ainda hoje.
Consumidores não veem problema nisso porque gostam dos reforços em relação aos seus hábitos, mesmo que sejam fundamentados na irrealidade, já que não pagam apenas para consumir tais produtos, mas também pelo que ajude a garantir que esse desejo não seja perturbado; o que é também do interesse de quem os oferece.
Pelo óbvio, consumidores não gostariam que o desenho no balde fosse de um frango recém-degolado e sangrando, com o pescoço mole e os olhos vítreos. Mas também não podem contestar que não há morte para que haja frango frito. Como poderiam? Apenas não querem ser lembrados disso.
Ainda assim, eles veem sentido na ausência de sentido do “frango feliz”, porque ele é a forma não humana do desejo humano, é a forma fantasiosa da aceitação (que é preterida como imposição), que não existe partindo dos frangos, mas que promove a ideia de que o frango nasce para isso e reconhece que ele é para isso. Quem nunca ouviu alguém dizer que os animais existem para nos servir? Isso é explorado de forma ridicularizante na promoção de produtos de origem animal.
Portanto o que também acho válido como reflexão é que há um desrespeito em relação a esses animais nesse tipo de propaganda, porque por meio dessa ilógica exposição há uma negação de um reconhecimento real do animal, mesmo quando já privaram-lhe de tudo.
Observação
Faço a referência como propaganda porque não é apenas sobre o produto, mas também sobre valores em oposição aos interesses do animal.
Leia também:
Por que falar em peru como carne e não como animal?
Comercial de Natal romantiza a matança de animais
Por que torcer pelas galinhas em um filme, mas comê-las depois?
Comerciais de carne são bons em vender as mentiras que desejamos
Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…
Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal? Há…
O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos? Em 2024, o Brasil bateu…
A prisão é o corpo: além do matadouro O consumo humano transforma animais em prisioneiros…
Amor ou justiça: por que a ética do cuidado é mais eficaz A premissa de…
Pode parecer coerente usar o termo “feito de plantas” em relação a alimentos ou pratos…