Categorias: Opinião

E quando a satisfação de muitos é o mal de muitos outros?

Foto: Unparalleled Suffering

O que pode ser dito quando a satisfação de muitos é o mal de muitos outros? Em muitos dos interesses humanos que envolvem animais, seja para consumo, trabalho, entretenimento, etc, se deixamos de lado a nossa perspectiva pelo que julgamos favorável a nós, embora isso também seja discutível, podemos realmente dizer que o interesse do outro é o mesmo que o nosso, se o que ele passa não é o que passamos? Se o dano que ele sofre não é o que sofremos?

É coerente afirmar que há uma ausência de danos? E se afirmamos que sim, estamos sendo realmente honestos? O que chamo de verdade deve sobrepor-se ao que pode ser apontado em contraponto como a verdade negligenciada sobre o animal? Se não reconheço no que ele vive um dano, se nem mesmo reconheço no seu fim um dano, qual é a condição que atribuo a esse animal?

Não invisibilizo o que sobre esse animal não pode ser resumido ao meu interesse, se é esse interesse o dano que desejo, e que mesmo assim não admito como dano porque rejeito seu reconhecimento como sujeito que em relação a mim o que experimenta é uma sucessão de danos, até o fim?

Não é da negação sobre o que é essa outra vida, e o que há nessa outra vida que escapa ao meu interesse, que leva à desconsideração do dano ou sua relativização? Por que o dano, se reconhecido, é somente um dano específico que decidimos reprovar e não o dano como um todo pelo que pode resultar?

Sentir satisfação a partir do que é dano em relação ao outro, independentemente da justificativa para essa ação, é ver no outro não o outro, mas somente um reflexo do próprio desejo – então o sujeito é só objeto de realização, e a realização é compreendida como um todo e que exclui tudo que não cabe nessa realização em forma de arbitrária vontade.

Também podemos nos deparar com inúmeras cenas que tornam impossível alguém fazer tal afirmação sobre a rejeição aos danos. Mas mesmo quando a maioria dos animais não são os sujeitos dessas cenas, isso valida o discurso da ausência de danos?

O dano existe na própria ação, e pelo que é sua ação, prescindindo do que é registro como cena, porque não é o registro que ratifica a vivência de danos dos animais, mas a relação que estabelecemos com eles.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • O pior de tudo são as pessoas inteligentes, estudadas e estruturadas que sabem da crueldade animal, mas simplesmente não se tornam veganas porque é prazeroso comer produtos de origem animal. Para esse tipo de pessoa privilegiada, os animais são piores que objetos, não existem. Curioso pensar que eles parasitam e são dependentes do que supostamente não existe.
    Para mim, esse tipo de pessoa perde toda a credibilidade.

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