Mesmo que o animal não humano seja vida matável, ele vive para ser matável? O lugar em que esse animal vive o prepara para a morte, e se não o faz, não deixa de ser de lá que partirá para a morte. Mas quem encontra nesse animal alguma indicação de que ele se reconhece como vida matável? Onde encontrar o animal não humano submetido a interesses de consumo que se entrega como vida matável?
Nem por isso tira-se do animal explorado a imposição como vida matável, porque vê-se no animal não o valor que constitui o animal para si, mas o valor que constitui o animal em oposição a si – o animal como impossibilidade para si mesmo à medida que é mais do que possibilidade para quem o domina.
Imagine um homem que olha para um animal subjugado e o animal olha para ele. O que o homem vê nesse animal, e que é um olhar sobre o que deseja sobre esse animal, reflete o interesse próprio do animal? Pode esse animal desejar o mesmo que esse homem?
Sobre isso, cito o exemplo de um bezerro que para engordar o mais rápido possível para ser abatido o deixaram sem água, forçando o animal a consumir uma fórmula líquida e específica para engorda.
O interesse do bezerro era saciar a sede, mas como não havia água, ele consumia tal fórmula. Assim, qual interesse prevaleceu? Já que isso permitiu acelerar o abate do bezerro, aproveitando-se do seu interesse que era pelo que não recebeu.
Se o interesse não humano é atendido conforme coincide com o interesse humano, isso não afasta a conclusão de que o animal explorado é o sujeito ausente da consideração humana, se a realização de um interesse que pode “beneficiar o animal” não é objetivada em primeiro lugar para tal animal.
Observar um animal não humano como vida matável não faz o animal agir ou aceitar a condição de vida matável. Poderia ser de outra forma? Isso persiste pela manutenção e naturalização do valor que não é inerente ao animal, mas imposto ao animal.
É valor antagônico, porque ainda que tudo seja tirado do animal, isso é, ao mesmo tempo, alheio ao que é o animal. Impera-se sobre esse animal a arbitrária lógica do “saco vivo a ser esvaziado” – da vida que se surge como matável é porque aceitamos como matável.
O sentido de vida matável é explorado nesta breve reflexão a partir do sentido de vida que existe tendo a morte como finalidade ou imposição decorrente de uma prática de exploração. Ou seja, a vida que, por contradição, só é vida para não ser vida, que é comum a tantos animais explorados e mortos para fins de consumo.
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A vida que já foi concebida para ser morte... 😥