Categorias: Opinião

Um banho antes da degola

Foto: Aitor Gamendia/Tras Los Muros

Quando lavam os animais antes de abatê-los, e chamam de “banho de aspersão”, que hoje mais comumente é uma lavagem sem interação humana-não humana, já que são mecanismos que são acionados e lançam água sobre os animais, há no termo uma inerente contradição.

“Banho de aspersão” no contexto de cuidados de saúde é sobre lavar quem é incapaz de lavar-se. É sobre amparar o outro, ser solidário e oferecer o que ele necessita para a manutenção ou garantia de um mínimo de bem-estar ou de dignidade em atenção à vida.

Ou seja, se pensamos nos dois sentidos, o sentido do “banho de aspersão” em relação aos animais no matadouro é antitético, porque esse “banho” não é sobre os animais. Não é sobre ampará-los, não é sobre proporcionar bem-estar ou atenção à vida. E se dissessem que sim, haveria lógica se a finalidade da ação é sobre matar?

Enfim, o “banho de aspersão” é apenas sobre preparar um animal para ser morto. Sua finalidade é de antecipação – de concluir que esse corpo deve estar limpo para passar por um processo de concussão cerebral e degola; para que o sangue desça de um corpo lavado, para evitar contaminação.

O banho é sobre uma lavagem que nunca prescinde em primeiro lugar do interesse econômico e de consumo. É sobre medidas sanitárias de redução de uma vida a um produto. O “banho de aspersão” então serve à exclusão do animal. É etapa de removê-lo de si, de determiná-lo por reafirmação ao fim.

Quando a água desce por seu corpo, há uma mensagem de que o corpo será expropriado, espoliado. Se um animal se agita ou se acalma nessa etapa, é como se a água não tocasse seu corpo, mas sua carne a ser arrancada de seu corpo – porque é tudo que interessa nesse processo de lavagem.

Assim a água é o que não pode ser para o não humano, que a sente no próprio corpo, mais do que é para o humano, que não a sente no próprio corpo –porque no matadouro a água que atinge o corpo não humano espalha-se como uma das formas de “manter a legitimidade” da “qualidade da morte animal”. Logo a água lava exatamente o corpo que não pode beneficiar, e porque o animal a ser morto não é quem deve ser beneficiado.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • Profundo...
    O ser humano consegue ser tão prepotente que acha que está cuidando do animal, mesmo que depois vá comer o animal.
    Esse tipo de humanidade só cuida dos seus próprios interesses, nada mais.
    E o interesse do animal de viver...? De não ser torturado, abusado e assassinado?

  • Não deixa de ser de diferente do modo como os nazistas encaminhavam para as câmaras de gás aquelas pessoas dizendo-lhes que elas iriam pro banho.

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