Refletia sobre o fim da vontade de comer animais. “Aos outros que estranham, só digo que é um presente. Olhar para as partes dos animais e não desejá-las porque reconheço o custo para eles, não para mim. Não sou capaz mais das dissociações que ainda abundam no mundo. Jamais conseguiria rejeitar tal consciência. E por que iria querer isso? Devo lutar contra a empatia, contra uma percepção, um juízo de valor que permite que eu reconheça que não devemos nos considerar as espécies mais especiais do mundo, autorizadas a subjugar, conforme nossas vontades, tantas outras excluídas de uma conveniente moralidade?”
Admitir que é possível viver doutra maneira, sem desejar nada de origem animal e ansiando por um mundo em que deixemos de ignorar o impacto de nossas ações na vida dos outros, evocou algo pouco definível que transitava pela sua consciência. “É uma forma de libertação, que é forma de expansão. É também como uma reconfiguração de olhos, de percepção, de capacidade de ver e sentir o que sou e o que não sou. E quando digo não sou, não penso na questão do não ser, mas do outro ser.”
Notou também o fim da estranheza em relação aos animais criados para consumo. “Eu os observava como se não observasse, como se não fôssemos parte do mesmo mundo, e creio que pela treinada impercepção do que são. Agora os enxergo como os indivíduos que são, e estar diante de qualquer um deles é estar diante de uma criatura também consciente, por mais que a sociedade ainda persista no contrário. Não comê-los, não querer apropriar-se de nada deles proporcionou-me um entendimento em relação ao que não é humano. E imagino que não o teria encontrado se ainda os trouxesse agora ao meu prato – ou qualquer coisa gerada por eles e que não existe para minha satisfação.”
De repente, lembrou de alguém que disse-lhe que não deveria sentir-se especial por não alimentar-se de animais. “E como poderia ser assim se é por entender que não sou especial que abstenho-me desse consumo? Não seria o oposto que transmitiria tal mensagem?”
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