Categorias: Pequenas Narrativas

Quando não viu mais sentido em comer animais

Foto: Silvia Hauptmann

Descontentamento foi como lufada quente no rosto quando refletiu sobre os animais que comeu por tantos anos. Não pensou em número específico, não calculou nada. Não queria estimativa. Só reconheceu como o cômodo que repete-se na irreflexão é estranho ardil.

Sentiu desconcerto no ritmo do coração e vergonha. Lembrou dos sorrisos, dos sabores, dos prazeres, das vezes em que não viu sentido e achou fósmeo, absurdo, comer algo sem carne, leite ou qualquer coisa de origem animal.

“É como um mundo de privações, de abstenção do bom viver. E assim vale a pena viver?”, rememorou. Então já não era aquela, que não imaginou deixar de ser, mas quem imagina quando o ser está cativo ou manietado em consciência julgada imperturbável?

Não buscou mudança, não consciente. Apenas chegou, instalou-se e ficou. Quando olhou para trás, mirou sua imagem virada para si, desfazendo-se sem acenar, sem despedida, carregando ideia de nostalgia que partiu sem forma. “De carne em mim, basta a minha própria”, refletiu.

Antes de sua imagem desaparecer, seu corpo movia-se deixando partes de animais pelo caminho. Uma trilha de fragmentos não humanos estendeu-se tão longe que sentiu os olhos cansados.

Veio uma imagem de animais que até então não reconheceu, porque não os via. De adulta, virou adolescente e criança, na inversão cronológica das vontades condicionadas. Na pequenez, agarrando uma coxa que não era sua e mordendo para celebrar nova porção de dentes, viu outro esmaecimento.

Foram semanas de conflitos que venceram-na pelo que não ansiou. Mas não era sobre vitória ou derrota. Não é nada disso. Um desconforto a levou a esfregar os olhos no começo, até que a coceira desapareceu. Também decidiu lavá-los doutra maneira. Água? Não era necessária.

“Um dia, pensei no quebra-cabeças da existência, e como matéria, que não é minha, na ausência do todo pela parte, nos retalhos dispersos de ex-vidas que formam uma alimentação tradicional. E também nos olhos que não poderiam ser trazidos para o meu prato, nos lábios que não são meus. Por que fechá-los e privá-los? Mas o que mais me incomodou foi a ideia de corpos que já não se levantam…”

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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