Categorias: Pequenas Narrativas

Quando porcos não chegaram ao matadouro

Foto: Andrew Skowron

Apareceu oportunidade de transportar porcos para um pequeno matadouro. Nunca carregou nada com vida – apenas grãos e farelo. Mas não viu problema em experimentar para avaliar se compensava investir. “De repente, até abro negócio de carga viva.”

Não era preciso tocar nos animais, porque o carregamento seria feito pelos funcionários da fazenda e a recepção dos porcos pelos funcionários do abatedouro. “Parece fácil. Por que não?” Armando tinha boa referência.

Assim que colocaram os animais na carroceria, ele a fechou sem olhar para os porcos. Era preciso percorrer cerca de 45 quilômetros até chegar ao matadouro.

Enquanto dirigia, ligou o rádio e ouviu notícia sobre uma porca que se escondeu na mata para evitar que fosse separada de dez porquinhos criados para o abate.

Mudou de estação e uma apresentadora anunciou que um porco saltou de um veículo a caminho do matadouro. “Com o caminhão em movimento? Eita! Porco faz isso? É bicho corajoso, hein?”

Os minutos passavam e Armando lembrou que não estava transportando grãos. Parou no posto para usar o banheiro e quando voltou teve curiosidade de ver os porcos na carroceria. Abriu bem devagar e eles o encararam. “Quantas dezenas de olhos…”

Deixou aberta por um, dois, três minutos para avaliar a reação dos suínos. Queria saber se algum deles tentaria fugir. “Vocês são bem mansos mesmo. Têm ideia pra onde tão indo? Não tem volta, viu? Vocês vão parar ali ó”, disse apontando o dedo para a lanchonete de onde vinha cheiro de carne de porco.

Os porcos continuavam na mesma posição. Armando sentiu pena e ficou incomodado em perceber que eram “dóceis demais”. “Se tivesse um buraco aqui e eu empurrasse vocês pra dentro, acho que cairiam dentro sem resistir. O que fizeram com vocês?”

Trocou mais olhares e voltou para a cabine. Dirigiu até o matadouro com um foco. “Devo apenas concluir o serviço.” Na zona de recepção, viu porcos sendo “guiados à base de choque” e desistiu de deixá-los naquele lugar. “Não posso fazer isso com vocês. Não sei o que vai acontecer comigo, mas sei o que vai acontecer com vocês.” Virou o caminhão e partiu.

Gosta do trabalho da Vegazeta? Colabore realizando uma doação de qualquer valor clicando no botão abaixo: 

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

3 semanas ago

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal?

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal? Há…

1 mês ago

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos?

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos? Em 2024, o Brasil bateu…

1 mês ago

O consumo humano transforma animais em prisioneiros de seus próprios corpos

A prisão é o corpo: além do matadouro O consumo humano transforma animais em prisioneiros…

2 meses ago

Animais, pela ética do amor ou do cuidado?

Amor ou justiça: por que a ética do cuidado é mais eficaz A premissa de…

2 meses ago

Por que não é uma boa ideia usar o termo “feito de plantas”

Pode parecer coerente usar o termo “feito de plantas” em relação a alimentos ou pratos…

2 meses ago