Categorias: Pequenas Narrativas

Quantos bovinos passaram por ali antes de morrer?

Foto: Aitor Garmendia

Encostou na mangueira e observou o rebanho no pasto. Mais tarde iriam para o confinamento. Mastigavam brachiarão e pareciam satisfeitos. “E se não estivessem, quem poderia dizer?”

Um parou de arrancar capim e o observou de volta, numa troca assistida. “Eu vejo você e você me vê. Até quando seus olhos chegam até nós?” O jovem bovino, com seus grandes olhos turvos, ainda deu outra mastigada e engoliu o que sobrou antes de virar de lado, de onde vinha o latido de uma cadela.

Estava calor e uma repentina corrente de ar trouxe sensação de mudança. Pensou em como os animais percebem ou sentem as nuanças que chegam mimetizando surpresas, que são consequências da intervenção humana na natureza.

“Logo o pasto não será deles, como se tivesse sido. Pasto é parte de um rito cruciante de passagem em uma cultura de efemeridade. Esses animais estão aqui e logo mais não estarão. Outros virão, depois outros e continuará assim – num trânsito discricionário de vida e morte; nascimento, crescimento e fenecimento. Quem passar por aqui pode achar que vê sempre os mesmos animais, ainda que não sejam. Isso vem de uma percepção faltosa em individuação.”

Imaginou o pasto como forma distinta de vida, com consciência e voz, e gostaria de tê-lo questionado sobre quantos bovinos passaram por ali desde a derrubada de mata para sua formação e nativa expulsão. “Quantas chegadas e partidas. Quantos foram embora para sempre? Sim, estou sendo pleonástico neste caso por necessidade de friso. Domésticos e silvestres…um ciclo de estranhos fins que se repetem…aqui, ali e lá.”

Continuou assistindo ruminantes deslizando suas bocas grandes pela brachiarão. Havia suavidade e som diverso de mastigação. “É da oscilação do apetite. Como são criaturas pacíficas…que vivem o agora, sempre o agora, para o nosso depois que não cabe em suas vidas.”

Olhou para um lado, para o outro e, de repente, viu o pasto vazio. Capim cresceu, só o capim. Pensou em como aquela ausência representava múltiplo fim. “Então chegou um novo rebanho, como parte do rito cruciante de passagem. E insistirão em ver o que não viram…”

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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