Quantos “não” diz um animal a caminho do abate? Criado para isso ou não. Tensão? Hesitação? Exasperação? Tudo não. Pra subir no caminhão é um não, pra descer é outro. E o não que entra e sai da caixa empilhada? Na montoeira, o não também se multiplica.
Pra entrar no matadouro, mais um. Para cada etapa, acentuação de não. No banho de aspersão? Também tem não. E o não de lá pra cá, de cá pra lá. Quem vê, não quer saber. Ninguém o acolhe, empurra pra longe, como se o não não estivesse lá. Ninguém quer não. Não aceitam não. Dão chutes no não, asfixiam o não, massacram o não, coitado do não. “Suma daqui, não!”, “Morte ao não!”
E no box o não cresce, e falam que o não não é não, porque querem esconder o não numa falsa compressão. Mas o animal ainda tem cara de não, e continua mostrando o não na descoordenada movimentação, nos olhos, na titubeação, na queda no chão. O não, que dizem sumir com tiro ou choque continua lá, pendurado num corpo sufocado.
O não desce com o sangue, porque é sangue. Também é boca estranha, pé pendurado, olho pesado, golpe deixado. Pra onde olho no animal, vejo não. Só tem não. Ele já é feito de não. Enchem os caminhões em direção ao açougue de sim, que é de não. E toda hora tem não, enquanto tem tanto sim, porque o sim vem de não e o não vem de sim.
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