Quantos “não” diz um animal a caminho do abate? Criado para isso ou não. Tensão? Hesitação? Exasperação? Tudo não. Pra subir no caminhão é um não, pra descer é outro. E o não que entra e sai da caixa empilhada? Na montoeira, o não também se multiplica.
Pra entrar no matadouro, mais um. Para cada etapa, acentuação de não. No banho de aspersão? Também tem não. E o não de lá pra cá, de cá pra lá. Quem vê, não quer saber. Ninguém o acolhe, empurra pra longe, como se o não não estivesse lá. Ninguém quer não. Não aceitam não. Dão chutes no não, asfixiam o não, massacram o não, coitado do não. “Suma daqui, não!”, “Morte ao não!”
E no box o não cresce, e falam que o não não é não, porque querem esconder o não numa falsa compressão. Mas o animal ainda tem cara de não, e continua mostrando o não na descoordenada movimentação, nos olhos, na titubeação, na queda no chão. O não, que dizem sumir com tiro ou choque continua lá, pendurado num corpo sufocado.
O não desce com o sangue, porque é sangue. Também é boca estranha, pé pendurado, olho pesado, golpe deixado. Pra onde olho no animal, vejo não. Só tem não. Ele já é feito de não. Enchem os caminhões em direção ao açougue de sim, que é de não. E toda hora tem não, enquanto tem tanto sim, porque o sim vem de não e o não vem de sim.
Em “O Polonês”, seu mais recente romance publicado no Brasil, o escritor sul-africano J.M. Coetzee,…
No livro “A Idade do Ferro”, de J.M. Coetzee, que se passa durante os últimos…
No filme belga “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Dardenne, Ahmed (Idir Ben Addi), após cometer…
Quando se aceita que não há crueldade no que se faz contra os animais, como…
Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…
Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…