Quem é este animal que não reconheço? Que está aqui e não está. Na descrição, frango, bovino, suíno. Ok. Sei que está aqui, mas não sei quem é. Penso nas partes faltantes. Quantas seriam necessárias para recuperar sua forma original?
Seria preciso encontrar os órgãos, costurá-los dentro dele. E sua cabeça? E os olhos? Agora penso no couro deste aqui e nas penas daquele ali. E os cascos? Também. E o bico? Pra onde foi? E o sangue?
Os menores distribuem-se por menos, e os maiores por mais. Quantos de nós comemos os mesmos indivíduos? Não matamos os mesmos com nossa vontade talhante?
Eu aqui e você aí, diante de partes diferentes do mesmo animal. Um quebra-cabeças de morte, carne e sangue. Quer saber quantos estão participando? Quem sabe?
Não é a indefinição que torna isso mais aberrante? Chamaria de intrigante? Pego uma parte, você pega outra e continuamos, com os outros, até o animal desaparecer e reaparecer sem ser.
Podemos combinar as partes e ver o que forma? Que tal? Sim, a faca que rasga é sobre-esforço coletivo, porque é a mão do abatedor, seus movimentos, que guiamos pelo desejo.
Digo que não sinto prazer com a violência, mas se é da violência que vem meu prazer, não há nada que devo fazer? Encaro este pedaço gelado, embalado. O que é não é quem era?
Posso dizer qualquer coisa sobre ele que prefiro chamar de “isto”, e quem contestará? Se é meu, se sou seu dono. Posso inventar ou dissimular qualquer coisa para preservar minha intenção.
Posso encher minha mente de ideias que julgo justas (irreais, quiméricas). Posso compartilhá-las e defendê-las, porque “isto” é meu, assim como “aquilo” é seu, embora não seja extração de mim nem de você.
Apreciamos nossas partes da mesma criatura, até que desapareça. Então buscamos partes de outras, porque nosso desejo é infinito na finitude.
Mas quem vai embora e o que chega não é constante e estranha condução que grita destruição? Não é dessa cesarista transformação que recebo minha parte? Sobre a mesa está o animal que nela não cabe.
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