Pequenas Narrativas

Quem quer ser um boi no matadouro?

Olhos estalados, baba grossa e quatro patas firmes num chão de cinco riscos (Fotos: Trish Mestric/AE)

Olhos estalados, baba grossa e quatro patas firmes num chão de cinco riscos. Dizem que ajuda a escoar a vida mais rápido. Ali tudo é muito duro. Foi construído pra ser assim, estreito na planejada compressão da pouca existência. Sente-se pequeno, acuado, e as paredes brutas, uma construção de intimidação, parecem que vão espremê-lo a qualquer momento.

Você sabia que os bovinos têm um alcance visual de mais de 300 graus? É intrigante como um animal com tal habilidade é enviado para morrer em um lugar que reduz ao máximo o exercício dessa capacidade. Existe crueldade nisso, sim, existe.

A ele é permitido observar somente os riscos na parede, que também são sinais de resistência vencida. Cada olho mira um lado e reconhece. Batimentos cardíacos aumentam, hiperventila. Cabeça é como se crescesse e o corpo se apequenasse.

Tem rodízio de limpeza no box, mas o cheiro de couro e violência não desaparece, não para as vítimas que também têm melhor olfato, muito melhor. E a audição então? Imagine quantas coisas um boi escuta antes de morrer – de perto, de longe, tudo se misturando, um caos de dor e desamor.

Ouvi que a baba grossa que resiste em cair no chão é como a vida bovina no pré-abate. “É, resiste, fica por um fio, mas cai, cai sim”, alguém disse. Quem chega pra fazer o serviço, antes atravessa a escuridão, desce os degraus queimados e deixa em descanso a compaixão pra buscar só na volta.

Tem gente que esquece e ela desaparece ou gruda no chão. É pisoteada tantas vezes nas idas e vindas que morre ali mesmo, misturada com a sujeira do dia, varrida com a imundície.

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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