Categorias: Música

Quando Richard Wagner criticou o consumo de animais

“Tenho observado a maneira como sou empurrado em direção à empatia pela miséria” (Imagem: Getty)

Em 1905, o editor William Ashton Ellis publicou o livro “Richard Wagner to Mathilde Wesendonck”, que reúne conteúdo de cartas que Richard Wagner (1813-1883), um dos compositores mais importantes do romantismo alemão, escreveu à escritora Mathilde Wesendonck, que teve cinco de seus poemas transformados no ciclo de canções “Wesendonck Lieder”.

Na página 47, Wagner, que é mais conhecido internacionalmente por suas obras “Tristão e Isolda” e “O Anel dos Nibelungos”, critica, a partir de suas observações cotidianas, o consumo de animais, a violência que envolve esse hábito e a naturalização da crueldade.

Tais impressões contribuíram à época para motivá-lo a defender o vegetarianismo e a conceber a sua teoria da regeneração (baseada na abstenção do consumo de animais), também influenciando outros artistas como o compositor austríaco pós-romântico Gustav Mahler.

O grito pavoroso do animal…

“Recentemente, enquanto eu estava na rua, meus olhos foram surpreendidos por uma cena em uma loja. Sem pensar, observei as mercadorias empilhadas e a limpeza, quando tomei consciência de um homem puxando uma galinha de dentro de uma gaiola. No mesmo instante, outro homem colocou sua mão dentro de outra gaiola e simplesmente arrancou a cabeça de uma galinha ainda viva.

O grito pavoroso do animal e os lamentáveis e mais fracos sons queixosos de terror me paralisaram e transfixaram minha alma. Desde então, sou incapaz de me livrar dessa impressão. É terrível perceber como nossas vidas, como um todo, permanecem viciadas no prazer, um prazer que repousa em um poço sem fundo da cruel miséria humana. Desde então, minha sensibilidade aumentou.

Tenho observado a maneira como sou empurrado em direção à empatia pela miséria; uma força que me inspira simpatia e me toca profundamente na medida em que desperta em mim um sentimento de quem reconhece o sofrimento de um companheiro. E vejo nesse sentimento o crescimento do meu ser moral e, presumivelmente, essa é a fonte da minha arte.”

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

4 semanas ago

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal?

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal? Há…

1 mês ago

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos?

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos? Em 2024, o Brasil bateu…

1 mês ago

O consumo humano transforma animais em prisioneiros de seus próprios corpos

A prisão é o corpo: além do matadouro O consumo humano transforma animais em prisioneiros…

2 meses ago

Animais, pela ética do amor ou do cuidado?

Amor ou justiça: por que a ética do cuidado é mais eficaz A premissa de…

2 meses ago

Por que não é uma boa ideia usar o termo “feito de plantas”

Pode parecer coerente usar o termo “feito de plantas” em relação a alimentos ou pratos…

2 meses ago