Lendo sobre os búfalos asselvajados e as capivaras que políticos como os senadores Confúcio Moura (MDB-RO) e Jayme Campos (União-MT) querem que sejam incluídos em um projeto de lei (3384/2021) que visa torná-los alvos de caça e comércio, me lembrei de Alfred Crosby narrando em “Imperialismo Ecológico” que nas últimas décadas do século 16 havia em Fuerteventura, nas Canárias, “multidões de burros selvagens”.
Para livrarem-se dos animais, os acusaram, claro que sem possibilidade de intervenção em defesa desses animais, “de consumir muita grama e ervas”. Com isso, os europeus que passaram a viver na ilha, e sendo eles próprios invasores, decidiram matar todos os “burros selvagens” que encontraram – chegando a 1,5 mil só em uma ação em 1591.
Tanto tempo depois, consciência análoga à desses imigrantes persiste como um atual imperativo a ser defendido politicamente, mas com a diferença de que há um olhar ainda mais voltado à instrumentalização e mais direcionado ao lucro do que havia na época.
É importante não ignorar que os bubalinos asselvajados são animais que não surgiram por conta própria em uma área, mas foram levados por pecuaristas que depois os abandonaram, e esses animais passaram a viver por conta própria, asselvajando-se.
Que animal nessas condições não luta pela sobrevivência, assim como os “burros selvagens” nas Canárias? Séculos mais tarde, a postura não pode ser considerada diferente, mesmo que partindo de diferentes contextos, já que não se pode equiparar a ignorância do século 16 com a da atualidade.
É uma história que tem se repetido em diferentes lugares e com diferentes espécies. Também é equívoco atribuir “risco de desequilíbrio ecológico” a determinados animais, quando isso não seria possível sem a ação humana. Logo, não é o humano a razão desse desequilíbrio?
Reduzir uma situação envolvendo animais a um problema e que deve ser resolvido de forma a “resultar num benefício econômico” é ansiar pela ampliação do círculo de exploração e violência contra não humanos. O que isso mostra é que há sempre humanos criando problemas para que outros forjem uma conveniente solução em que a culpabilidade pesa sobre o mais vulnerável.
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