Categorias: Opinião

Quando alguém me disse que o boi não estava chorando

Enquanto eu observava a expressão de um bovino que logo seria morto, e que não transmitia nada que pudesse não fazer pensar no fim do boi, alguém me disse que isso não significava o que eu pensava, que não havia sentido em atribuir uma reação como emoção, “que era somente resultado da minha guiada interpretação baseada em valores não universais”, mesmo que eu nem tivesse dito ainda o que eu pensava sobre a cena.

Achei intrigante como a antecipação de alguém sobre a minha percepção, mesmo sem que eu tenha feito prévia articulação, pode ser incômoda para quem pode não compartilhar dela por predisposição divergente. “Esse boi não expressa nem sente o que você acha que ele expressa e sente.” Não que essa pessoa negasse emoção aos animais, mas negava o que definiu como “interpretação fácil e equivocada sobre a imagem”.

Embora eu não tivesse feito observação sobre os pelos molhados abaixo dos olhos do animal, logo ouvi: “Não, ele não está chorando. Não, você não sabe o que ele está realmente sentindo”, insistiu. Não fiquei preocupado em contestar o que ele disse, mas sobre o “sentir não humano”, achei especialmente intrigante a observação.

Questionei sobre a dimensão de sentido da imagem. Não é o lugar em que o animal está e a conclusão sobre para onde ele será enviado que geram incômodo? Por que os olhos estão daquele jeito? Por que aquela expressão? O que pode ser dito que contraponha uma ideia de mal-estar não humano?

Não é sobre antecipação ou consumação de uma indesejada ação? O que sente o animal que pode despertar em quem também o observa um mal-estar? Mesmo que essa pessoa não deseje mudar pelo que vê, quem dirá que essa imagem expressa prazer ou satisfação? E se não evoca nada disso, e sim o contrário, o que pode-se pensar sobre tal realidade?

Uma conclusão objetiva sobre o que é ser esse “outro”, sobre alteridade, em que momento não teria validade? Posso subjetivar a respeito, mas posso apenas objetivar também. Afinal, o que pode ser mais determinante do que olhar para o animal sem precisar imaginar a experiência para ele, entretanto considerando, o que, como um dano, não deixa de ser prenúncio de um mal letal?

Leia também “O que resta ao boi faltando pouco para morrer?“, “Se um boi observa um boi sendo morto, desejará esse boi ser morto?” e “A luta de um boi que não escapou do matadouro“.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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  • AINDA QUE CHAMAIS SENHOR SENHOR, NAO VOS OUVIREI, PQ TUAS MAOS ESTAO.MANCHADAS PELO SANGUE...QUEM.ASSASSINA UM BOI E COMO QUEM ASSASSINA UM HOMEM , ESTES ESCOLHERAM OS SEUS CAMINHOS , E EU ESCOLHEREI AS SUAS AFLICOES...ISAIAS 66

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