Categorias: Opinião

Ser chamado de jumento não é ofensa

Em um período em que foram intensificados os atos no Brasil contra o abate de jumentos, animais que quando considerados de “pouca ou nenhuma utilidade” são abandonados e/ou vendidos para que sejam abatidos, Bolsonaro achou uma boa ideia chamar o Lula de “jumento”.

Claro que isso foi feito com o objetivo de tentar ofendê-lo. Lula então respondeu que ser chamado de jumento é elogio, porque “é um animal simpático e mais esperto que alguns”. Ele também chamou a atenção para outras características do jumento.

Você pode ser favorável ou contrário ao Lula, mas esse tipo de percepção sobre um animal como o jumento é relevante para contrapor e ajudar a mudar essa mentalidade de associação de determinados animais com atribuições totalmente pejorativas.

Há políticos que ainda insistem em atacar adversários envolvendo animais não humanos (o que também revela pobreza argumentativa), como se fossem sinônimos de algo negativo. Associá-los a uma percepção negativa (e irrealista) não ajuda em nada a mudar a percepção sobre esses animais, muito pelo contrário.

Isso é favorável somente à instrumentalização e inconsideração, porque muitos têm uma tendência a julgar o que é meritório sobre um animal com base no que é convenientemente negado e dissimulado sobre sua condição e capacidade.

Não que a consideração de um animal deva ser condicionada à capacidade, mas distorcer o que é real sobre um animal e ajudar a perpetuar essa mentalidade, quando não tem o menor sentido concreto, é sempre favorável ao que de pior pode ser feito contra esses animais por esse viés de inconsideração.

Ser chamado de jumento deveria ser sempre recebido como elogio, porque o que importa não é a percepção de quem chama alguém de jumento, mas quem de fato é o jumento.

Luiz Gonzaga em “Apologia ao Jumento (O Jumento é Nosso Irmão)”, de 1967; e Chico Buarque como intérprete, dez anos depois, da música “O Jumento”, de Magro Waghabi, já entendiam isso, ao cantarem sobre o triste fim do jumento e ressaltarem suas características que em nada têm a ver com o uso comum e preconceituoso do termo “jumento”.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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