Um galho que atravessa a carroceria de um caminhão que transporta animais para o matadouro é recebido por uma língua bovina. Isso não é sobre sensações? O animal quer sentir a folha, quer experimentá-la. Eleva a cabeça o quanto pode para tocá-la.
Podemos achar isso tolo, trivial, mas é assim para esse animal? O caminhão é sua prisão móvel para o fim, e o esforço para tocar o galho faz com que deixe saliva na barra da carroceria.
A língua onde não se quer também revela um querer, um obstáculo à vontade. Sente o gosto de algo que continuará lá, que diferente dele, não partirá. É um encontro de vida e morte, o que persistirá e o que não será.
Mas quando o caminhão vai embora e a boca já não pode tocar as folhas, o animal deixa algo seu nelas – de vida misturada com vida. Pode ser o animal deixando sua vida nas folhas?
Porque o que deixa nelas é sobre sua condição viva que logo deixará de ser. E as folhas que já não podem ser sentidas ficam, e contêm o animal que as conteve. O encontro também é sobre um trânsito de privação e liberdade.
Como seria se o animal pudesse se transformar nas folhas que sentiu? Metamorfosear-se, esverdear-se, para depois reassumir sua forma. Ou talvez preferisse continuar assim.
A saliva bovina seca nas folhas e no galho, torna-se parte da árvore que não podem abater, e o animal desaparece matadouro adentro.
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