Categorias: Opinião

Somos animais que exploram tantos outros animais

Embora animais, é intrigante como normalmente não nos referimos a nós mesmos como animais. E se, em algum momento, de forma não pejorativa, dizemos que somos animais, fazemos isso apenas para reforçar uma ideia de distinção dominante em relação aos outros animais.

Não tenciono agora discutir o conceito de racionalidade, que atribuímos a nós, e o de irracionalidade, que atribuímos aos outros, que para mim é sempre fonte inesgotável de controvérsias, principalmente se, além da questão biológica, penso na sua dubiedade e na intenção antropocêntrica humana, mas apenas refletir sobre o uso do substantivo “animal”.

O “animal” é sempre o outro, o que não sou, o estranho, o que não deve receber justa consideração de interesses. Nessa observação, reflito em primeiro lugar sobre os animais a quem a partir das inúmeras cadeias de exploração classificamos como um meio para um fim, e tal fim foi definido há muito tempo como o “homem”, porque o “animal” que não sou deve ter o seu “fim em mim”, pela consumação de meus interesses.

Assim há o animal sempre tendo o fim no animal, mas que a partir de uma distinção estabelecida também como barreira, um animal, o humano, decide reconhecer sem reconhecer realmente o outro, ao mesmo tempo em que sequer se reconhece nessa percepção de si como animal. Então fala-se somente do outro como animal, mas nega-lhe também o amparo e consideração de sua condição como animal.

É mais fácil explorar animais a partir da crença numa diferença como permissiva, de um olhar de estranheza em que acreditamos que somos criaturas em condição especial de direitos irrevogáveis de subjugação não humana.

O excepcionalismo humano favorece uma ideia de não assimilação real de nós mesmos como animais e, se somos, então “somos sem sê-los” porque se, de fato, reconhecemos que somos, como não tratar os outros animais de forma não arbitrária? Historicamente, devemos essa percepção supremacista, em especial, às conveniências da moral cristã ocidental.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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