Subjugação animal não é esporte. Impor a um animal que reaja a uma prática, classificada como “esportiva”, não significa que seja, já que a participação não humana é involuntária.
Aberrante também é que, além de antiesportivo, o uso de animais para diversão e suposto congraçamento é definido como “tradicional”, como se fosse sobre algum tipo de identidade associada, por origem, a um povo local, numa essencialista artificialização.
Mas qual é a validade disso se é sobre prática que sequer conecta-se, por proveniência, à localidade? Não torna esse algo um intrínseco, não desvalida sua não construção como parte de uma realidade a quem tenta-se atribuir o “efeito do comum”, da legitimidade que é contraditória por seu próprio falseamento que nega precedências e, pior, consequências.
É citável o rodeio, por exemplo, que chegou ao Brasil trazido do Hemisfério Norte, incorporando outros exercícios de violência como entretenimento, e ainda tem um efeito inquestionado de tradução cultural.
No mundo há muitas práticas violentas contra os animais, e que são classificadas como “tradição” mais para uma camuflagem conveniente em meio jurídico. Porque não precisamos ir longe para não reconhecer inúmeras como tradição.
E ainda que fossem locais e tradicionais, o que dizer do exercício de domínio sobre um animal como meio de divertimento? O que existe de probo e grandioso em prevalecer-se das vulnerabilidades não humanas?
Se há satisfação humana em subjugar um animal e vê-lo vencido, exaurido e caído, o que isso diz sobre quem a sente? O que posso concluir também sobre o ambiente controlado e preparado para que o animal sinta-se afugentado e experimente estranhamento inevitável?
Penso também no que escreveu Machado de Assis em objeção à violência do entretenimento com touros em “História de Quinze Dias” e em crítica ao supremacismo humano em “Direitos dos Burros”, e ainda no século 19, mas como se fossem também de hoje; e porque, em relação a muitos animais, os direitos ausentes daquele tempo ainda são os direitos ausentes de hoje, e com a diferença de que hoje temos muito mais condições de reconhecer os erros humanos.
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