São importantes os estudos que proporcionam clarificação sobre o comportamento dos animais, suas maneiras de agir, enfim, viver, principalmente se visam mudar a maneira como vemos os mais desfavorecidos e mais encabrestados, ou seja, aqueles a quem, por espécie, determinamos servilidade.
Então penso no que diz a ciência sobre a senciência e a inteligência animal; sobre as capacidades não humanas e suas multifárias possibilidades. Reconheço como reforços de uma constatação que não distancia-se do que parece-nos tão óbvio.
Num mundo de inferiorização não humana com viés exploratório, e pondero sobre a dominação como fator-perpétuo, porque vida e morte são “trânsitos para lucro e consumo”, como partes de interesse de um sistema perenal, até o óbvio precisa ser esmiuçado para servir como contestação às violências físicas e não físicas impostas aos outros animais.
Porque o reconhecimento aos olhos, à clareza de qualquer consciência predisposta, ainda é insuficiente em um “mundo” que requer “formalização e documentação científica e jurídica que contraponha suas axiomáticas hipocrisias” – não reconhecidas assim, por mais ilógicas que sejam.
E mesmo quando apresentadas são rejeitadas pelos “vazios cômodos da civilidade”, que permite-me também uma percepção de incivilidade, que creio ser mais condizente com essa falha de nosso tempo quando refere-se à inconsideração sobre quem não somos, portanto, rejeitamos (como indivíduos) ou apequenamos.
Quando tais hipocrisias são legitimadas, logo naturalizadas, não são vistas como hipocrisias, e porque o mundo civilizado articula-se muito por aparências e incongruências, porque as aparências se percebidas como desconectadas de uma construção do real evocam com clareza o máximo de nossos equívocos. E não é esse pensamento que acompanha-nos quando vemos nos animais sujeitos de direitos?
Mas, se nos educamos sobre isso, e surge um efeito extensivo, há melhores condições de enfraquecer as demandas de fragilização das contestações a essa arbitrariedade. Assim, a nocente resistência jurídica ou de qualquer outra ordem não teria como perseverar, como é comum hoje.
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Mais um excelente texto, David!
Muito obrigado, Antonio!