Categorias: Pequenas Narrativas

Tem sangue no sorvete

Ilustrações: Rose Wong/Marlaina Mortati

Sentiu gosto estranho tomando sorvete. Não conseguia identificar o que era. Olhou para o pote, cheirou e não notou nada de diferente. Foi ao banheiro, observou a língua no espelho e nada. “Esquisito isso, bem esquisito.”

Mais algumas colheradas e o gosto continuou – e como se fixasse sabor por toda a língua e grudasse no palato. E mais, ficou forte, tão forte que descansou a colher.

“Não é só gosto. Tem cheiro de bicho molhado e sinto toque de pele coberta por pelos curtos. Agora sinto gosto de pele na boca.” Voltou ao banheiro e mais uma vez não viu nada de diferente.

Ainda queria tomar sorvete, mas achou que poderia ter algo de errado com o produto. Afinal, o que explicaria aquela estranheza? Olhou a validade e estava tudo certo. Nada no rótulo indicava irregularidade.

Fechou o pote e ouviu som estranho. Quando abriu também. Era como se estivessem arrastando algo ou alguém. “Isso não faz sentido. Deve ser cansaço.” Arriscou mais uma colherada. A boca gelou. Sentiu o palato, a língua e a mandíbula queimarem.

Tirou bem rápido e não sentiu mais nada. “Isto aqui tem gosto de dor? Como?” Abriu o pote de novo e havia calda. “Não comprei sorvete com calda.” Era vermelha, não de fruta vermelha. Tinha cheiro de sangue, de ferro.

Havia bastante espaço para mexer e moveu bem rápido a colher. Não conseguia parar – e viu apenas mistura de leite e sangue. De repente, uma bolha subiu e estourou em frente aos olhos.

Já não sentia mais cheiro de sangue nem de ferro, mas de carne bovina. Quando sumiu, olhou outra vez para o pote e viu um úbere desfazendo-se entre o branco e o vermelho. Imaginou um bezerro tentando alcançá-lo sem conseguir, até que a boca desapareceu.

Encostou na poltrona e deitou a cabeça para trás, com o pote já fechado. Abriu pela última vez e já não viu nada do que viu. Mas tudo subsistia dentro de si, num insólito lampejo de experiência ou consciência – ou os dois.

O que foi isso? Verdade ou irrealidade? E a irrealidade também não traz verdade? Reservou o impacto e o alojou onde quis, em lugar não recôndito, para que não sumisse ou esquecesse. “Há prazer que vira desprazer porque sentimos o que não sentíamos e consideramos o que não sabíamos.”

Gosta do trabalho da Vegazeta? Colabore realizando uma doação de qualquer valor clicando no botão abaixo: 

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

4 semanas ago

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal?

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal? Há…

1 mês ago

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos?

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos? Em 2024, o Brasil bateu…

1 mês ago

O consumo humano transforma animais em prisioneiros de seus próprios corpos

A prisão é o corpo: além do matadouro O consumo humano transforma animais em prisioneiros…

2 meses ago

Animais, pela ética do amor ou do cuidado?

Amor ou justiça: por que a ética do cuidado é mais eficaz A premissa de…

2 meses ago

Por que não é uma boa ideia usar o termo “feito de plantas”

Pode parecer coerente usar o termo “feito de plantas” em relação a alimentos ou pratos…

2 meses ago