Sentiu gosto estranho tomando sorvete. Não conseguia identificar o que era. Olhou para o pote, cheirou e não notou nada de diferente. Foi ao banheiro, observou a língua no espelho e nada. “Esquisito isso, bem esquisito.”
Mais algumas colheradas e o gosto continuou – e como se fixasse sabor por toda a língua e grudasse no palato. E mais, ficou forte, tão forte que descansou a colher.
“Não é só gosto. Tem cheiro de bicho molhado e sinto toque de pele coberta por pelos curtos. Agora sinto gosto de pele na boca.” Voltou ao banheiro e mais uma vez não viu nada de diferente.
Ainda queria tomar sorvete, mas achou que poderia ter algo de errado com o produto. Afinal, o que explicaria aquela estranheza? Olhou a validade e estava tudo certo. Nada no rótulo indicava irregularidade.
Fechou o pote e ouviu som estranho. Quando abriu também. Era como se estivessem arrastando algo ou alguém. “Isso não faz sentido. Deve ser cansaço.” Arriscou mais uma colherada. A boca gelou. Sentiu o palato, a língua e a mandíbula queimarem.
Tirou bem rápido e não sentiu mais nada. “Isto aqui tem gosto de dor? Como?” Abriu o pote de novo e havia calda. “Não comprei sorvete com calda.” Era vermelha, não de fruta vermelha. Tinha cheiro de sangue, de ferro.
Havia bastante espaço para mexer e moveu bem rápido a colher. Não conseguia parar – e viu apenas mistura de leite e sangue. De repente, uma bolha subiu e estourou em frente aos olhos.
Já não sentia mais cheiro de sangue nem de ferro, mas de carne bovina. Quando sumiu, olhou outra vez para o pote e viu um úbere desfazendo-se entre o branco e o vermelho. Imaginou um bezerro tentando alcançá-lo sem conseguir, até que a boca desapareceu.
Encostou na poltrona e deitou a cabeça para trás, com o pote já fechado. Abriu pela última vez e já não viu nada do que viu. Mas tudo subsistia dentro de si, num insólito lampejo de experiência ou consciência – ou os dois.
O que foi isso? Verdade ou irrealidade? E a irrealidade também não traz verdade? Reservou o impacto e o alojou onde quis, em lugar não recôndito, para que não sumisse ou esquecesse. “Há prazer que vira desprazer porque sentimos o que não sentíamos e consideramos o que não sabíamos.”
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