Categorias: Opinião

Temos mais contato com animais mortos do que vivos

Foto: Seb Alex/We Animals

Há fronteiras que criamos em relação a outros animais que são como barreiras, se eles não nos despertam interesse; e há outras que representam um espaço de travessia, quando são do nosso interesse.

Mas o que é esse interesse? Cada pessoa que lê o primeiro parágrafo pode interpretá-lo de uma forma. Seria um interesse referente aos benefícios que podemos obter a partir do domínio de quem não é humano? Se sim, o que eu estaria propondo que é uma novidade, não uma realidade ordinária?

Posso dizer que as barreiras que cito vêm do “não olhar que motiva o explorar” em oposição à fronteira que permite uma travessia que é também forma de reconhecimento e outro entendimento.

É possível ver nossa interação com outros animais de várias formas, e que podem não significar contato com suas vidas, mas com o que associa-se tanto a elas quanto com suas ausências.

Consumir produtos de origem animal é um tipo de interação com quem não é humano, porque um produto é também um elemento simbólico que referencia um contato com o que é parte da vida ou morte de um animal.

Ele está ali sem estar, em formas diversas e que não resumem-se a partes de um corpo descorporificado. E podemos pensá-la como positiva? Vejo nisso uma impossibilidade, porque essa interação, que também posso chamar de indutora de materialidades, evoca a “transitoriedade útil” da existência, que culmina na finidade pré-estabelecida ou na descartabilidade.

Ademais, suas limitadas interações distantes de nós são determinadas pelas interações posteriores que desejamos – porque é pelo relacionamento com suas presentes ausências que mais prezamos.

Assim também é reconhecível que a maioria interage mais com animais mortos do que vivos, porque por meio do consumo recebem dentro de si o resultado do processamento de suas inexistências.

O sentir e o gosto da não vida são simbólicos do quanto estamos tão próximos e tão distantes dos animais não humanos. Também é destacável o que torna-se uma apropriação a partir do corpo e que, não sendo a morte, não significa que deixa de favorecê-la.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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