Qual seria nossa impressão se testemunhássemos alguém privando, por uso de força, um bebê de seu momento de amamentação? Pelo menos a maioria classificaria isso como “um ato cruel”, “uma violação injustificável de um importante momento de nutrição”.
Mas se testemunhássemos um bezerro sendo impedido de ser amamentado por uma vaca, a reação seria de equivalente proporção? Sem dúvida, não. Claro que haveria reações de oposição a essa privação, porém, não teria igual dimensão de contrariedade em relação à realidade de um bebê humano – e podemos pensar também na diferenciação a partir de um critério quantitativo.
Isso é previsível porque o excepcionalismo humano motiva uma crença de “valores menores” para a mesma experiência concernente a um ciclo de vida não humano. Ou seja, atribui-se diferenças reducionistas que não são sobre o impacto da experiência, e sim sobre quem participa da experiência.
E se o contexto não é de origem, geração e vida natural, tem-se mais elementos usados como legitimadores e anuentes dessa prática, porque é a partir dele que os animais são massivamente instrumentalizados para atender aos nossos interesses de consumo, ainda que não seja o único.
Assim o choque ao ver a privação de um bezerro em mamar, se não significa um choque que motiva oposição às bases dessa realidade, é mais um exemplo do “incômodo pela momentaneidade”, de um estranhamento que pode ser mais sobre nossa própria reação, e da qual podemos querer livrar-nos o mais rápido possível, e sem interesse em contribuir para uma solução, do que sobre quem dela é vítima.
Há sempre o risco também de um olhar conveniente para o bezerro como “vítima da singularidade”, embora sua privação seja consequência de um continuísmo, que é sobre ele, mas não apenas sobre ele, já que a experiência a partir desse sistema não começa nem termina com ele.
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