Observava um pintinho que caiu de uma caixa na granja de ovos. Todos os outros haviam sido macerados. Tentou imaginar o que significava aquele tipo de sobrevivência.
“Não sou um pintinho, então o que posso saber sobre essa experiência? Prefiro não fingir que sei, mas posso refletir sobre o contexto e seu comportamento.”
O animal era tão pequeno que o viu cercado por caixas como se estivesse diante de grandes paredes. “É o que parece, não?” Mais adiante, pares de pés iam de um lado para o outro.
“Mas o obstáculo não é a caixa, porque a caixa não subtrai vidas, não ameaça corpos não humanos. É apenas um espaço desconfortável e transitório entre vida e morte, vida e dominação.”
Mirou de novo a primeira caixa, de baixo para cima, e percebeu que as grades formavam uma sequência de pequenas celas, e o pintinho entre a terceira e a quarta.
“Cheiro de coisas convergentes e divergentes, do que não é humano, do que é humano e do que nunca teve vida nem teria. Tudo misturado ao mesmo tempo que não.”
O pintinho quase roçava as penas na caixa. Não fazia barulho. Tão minúsculo que mesmo se quisesse não poderia. Poderia? “Será que é da pequenez que também vem a não atribuição de significância? E o que dizer então de bois, vacas e porcos?”
Não notou o pintinho observando ninguém. “E por que deveria nos observar?” Pensou em defini-lo como criatura perdida, numa indução de que estar ali é também não estar, e que se encontrado seria como se não fosse, porque não seria reconhecido. “Qual foi?”
Então pensou no sangue, que é pouco e que sai daquele pequeno corpo, que quando bem macerado transfigura-se em coisa ou despojo.
“Mas já não era coisa? Porque se coisa não fosse, não seria o único, ainda que continuasse ali por um acidente e uma desatenção.”
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