Em um parque, uma criança corria atrás de um ganso com um pedaço de pau. O animal estava em uma área onde a criança não poderia alcançá-lo. Mas o ganso notou a presença da criança e sua intenção em acertá-lo. Tanto que, antes próximo de alguns humanos, com a proximidade da criança, o ganso correu para uma área longe de humanos.
A criança, que chamou o ganso de “galinha diferente”, roçava o pedaço de madeira por onde passava, fazendo barulho, e o pai não via problema. Olhava para o garoto, mas nada sobre isso atraía sua atenção para possível intervenção. Nenhum humano parecia incomodado com a ação. Talvez vissem aquilo apenas como “brincadeira infantil”, por ser uma criança pequena e segurando algo que não conseguiria usar para ferir alguém.
Lembrei-me de outras crianças, em situações em que a reprovação de uma tentativa de agressão contra um animal, se surge, surge mais pela associação com a força que a criança possui. Então as pessoas riem da falta de força da criança em causar um mal. Mas o problema existe somente na consumação da violência?
É na crença de que um mal é impraticável, e nunca não sua intenção de causá-lo, que deve ser limitada a reprovação? Não tenho intenção de propor uma reflexão sobre o mal da ação senão como fim, mesmo na não concretização.
Se a criança pode ferir um animal e vê nisso somente “brincadeira”, não há problema? O que permitiu que a criança corresse no parque com um pau para tentar atingi-lo? De ser uma criatura percebida como diferente? Já que o chamou de “galinha diferente”. A diferença justifica a ação?
Creio que a ação da criança é exemplo do que pode acontecer quando não compartilhamos valores sobre outros animais. Será que ela teria perseguido o ganso com a intenção de acertá-lo se tivesse sido explicado que ninguém, incluindo outros animais, gosta de ser perseguido por alguém com a intenção de lhe atingir?
A perseguição já deixa o animal em estado de alerta. Se o ganso é a vida que afasta-se da criança pela proximidade da ação indesejada, o que isso diz sobre a forma como a ave percebe o que alguém pode ver apenas como “brincadeira de criança incapaz de ferir”?
Leia também “Quando a criança ouviu o guincho sofrido do porco“, “Quando uma criança viu o sofrimento de um peixe“, “A criança que não quer se alimentar de animais” e “Por que crianças que admiram aves comem aves?“
Ser vegano “é coisa de mulher”? Autoras como Carol J. Adams trazem contribuições para pensarmos…
Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…
Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal? Há…
O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos? Em 2024, o Brasil bateu…
A prisão é o corpo: além do matadouro O consumo humano transforma animais em prisioneiros…
Amor ou justiça: por que a ética do cuidado é mais eficaz A premissa de…