
A criança sentiu uma ardência nos olhos quando ouviu o guincho sofrido do porco, que tinha nome, como se já não tivesse. Ficou tão assustada que não chorou. Pelo buraco, só viu o porco tremer; que antes viu comer, rolar, correr. Passava horas na lama, como se a lama fosse só dele, até não ser.
Bigu estava onde nunca esteve, onde só poderia comparecer, sem escolher, uma vez. Não demorou. Mas e para Bigu? Juntaram pedaços de Bigu e dividiram em dois congeladores – partes de um corpo serrado.
Um dia, Bigu viu uma serra ser usada para cortar galhos grossos. A criança pensou no corpo de Bigu, na curiosidade de Bigu. Era uma serra diferente. A árvore continuou viva, somente aparada. Bigu, não. A criança ficou atrás da casa pensando em Bigu.
À noite, serviram pedaços de Bigu e, de repente, faltou luz. Quando a luz voltou viram que a travessa com pedaços de Bigu sumiu. Encontraram a criança juntando as partes de um congelador e da travessa no chão, tentando montar Bigu – misturando o cru e o assado.
Lembrou-se do porco de um livrinho que, no juntar dos pedaços, voltou a ser inteiro e viveu. “Por que não Bigu?” Apanhou por se importar com Bigu, e pensou em como sua dor era pequena em relação a de Bigu. Que porco não é Bigu?
Leia também “Uma lição para não matar porcos“, “Quando testemunhei um homem pelando um porco” e “Um humano na pele de um porco“
2 respostas
Nunca mais comi porco, não é ético, não é normal, não é decente…..
É injustificável a imensa atrocidade do ser humano aos animais…E uma imensa falácia, hipocrisia do humano em pedir Paz fazendo da vida dos animais o inferno…..