Fina já não produzia leite como suas jovens companheiras. No último dia de ordenha deitou no chão para não levantar mais. Mandaram um guincho removê-la. Se esforçou para enterrar as patas no chão – cavou em vão. Energia já não era a mesma de antes, e cedeu à força da máquina. Invertida. Olhos iam de um lado para o outro – perdidos na orla da insciência.
Mugia, despercebida. Se debatia com pouca força no ar, sem saber. Destituída de vida, a máquina não cansa. “É , Fina…” Cortina de poeira subia e a cobria. Partia, jogada na carroceria do caminhão. Era a sétima do dia. Ninguém conseguia levantar e a ordem era arrastar. Úberes, bolsões de leite já murchos – como sacos vazios de vento – vermelhos, doloridos, com os bicos feridos.
Quantos filhos nascidos? Ninguém sabia, só Fina, que já inexistia. Alguém disse: “Doze manchinhas no pelo do pescoço!” E uma surgia a cada filho que sabia que morria. “Tá velha, já não rende, a não ser carne”, repetia. “Vai vira hambúrgui.” E seguia. No solavanco, a tábua da carroceria batia. Doía, mas já não gemia. É a vida – ou ausência dela. Tudo que conhecia desaparecia com as cortinas de poeira – enviesada pela madeira coberta por sangue seco na carroceria.
Silêncio, e que silêncio – uma das vacas já mortas e as outras assistiam. Não lamentavam mais. Ninguém iria se salvar. Matadouro. Reconheciam o cheiro. Não temiam, só aquiesciam – no esbulho do querer. Viam outros animais no pasto – se entreolhavam – destino igual, mais cedo ou mais tarde. “É pra todos nós”, pode-se imaginar.
Na curva, pneu se soltou. Caminhou repuxou à esquerda e deitou ribanceira adentro. Motorista sobreviveu. Multidão se formou, só pra recolher o que sobrou. “Carne, carne, carne”, era o que viam – em meio ao sangue e às faces diluídas desde o nascimento. Civilização. Enchiam sacolas e se afastavam. O sangue gotejava sobre a plaquinha na carroceria: “Deita fora a vontade que suaviza a maldade.”
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