Quantos filhos nascidos? Ninguém sabia, só Fina, que já inexistia (Ilustração: Jo Frederiks)

Fina já não produzia leite como suas jovens companheiras. No último dia de ordenha deitou no chão para não levantar mais. Mandaram um guincho removê-la. Se esforçou para enterrar as patas no chão – cavou em vão. Energia já não era a mesma de antes, e cedeu à força da máquina. Invertida. Olhos iam de um lado para o outro – perdidos na orla da insciência.

Mugia, despercebida. Se debatia com pouca força no ar, sem saber. Destituída de vida, a máquina não cansa. “É , Fina…” Cortina de poeira subia e a cobria. Partia, jogada na carroceria do caminhão. Era a sétima do dia. Ninguém conseguia levantar e a ordem era arrastar. Úberes, bolsões de leite já murchos – como sacos vazios de vento – vermelhos, doloridos, com os bicos feridos.

Quantos filhos nascidos? Ninguém sabia, só Fina, que já inexistia. Alguém disse: “Doze manchinhas no pelo do pescoço!” E uma surgia a cada filho que sabia que morria. “Tá velha, já não rende, a não ser carne”, repetia. “Vai vira hambúrgui.” E seguia. No solavanco, a tábua da carroceria batia. Doía, mas já não gemia. É a vida – ou ausência dela. Tudo que conhecia desaparecia com as cortinas de poeira – enviesada pela madeira coberta por sangue seco na carroceria.

Silêncio, e que silêncio – uma das vacas já mortas e as outras assistiam. Não lamentavam mais. Ninguém iria se salvar. Matadouro. Reconheciam o cheiro. Não temiam, só aquiesciam – no esbulho do querer. Viam outros animais no pasto – se entreolhavam – destino igual, mais cedo ou mais tarde. “É pra todos nós”, pode-se imaginar.

Na curva, pneu se soltou. Caminhou repuxou à esquerda e deitou ribanceira adentro. Motorista sobreviveu. Multidão se formou, só pra recolher o que sobrou. “Carne, carne, carne”, era o que viam – em meio ao sangue e às faces diluídas desde o nascimento. Civilização. Enchiam sacolas e se afastavam. O sangue gotejava sobre a plaquinha na carroceria: “Deita fora a vontade que suaviza a maldade.”

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

4 semanas ago

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal?

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal? Há…

1 mês ago

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos?

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos? Em 2024, o Brasil bateu…

1 mês ago

O consumo humano transforma animais em prisioneiros de seus próprios corpos

A prisão é o corpo: além do matadouro O consumo humano transforma animais em prisioneiros…

2 meses ago

Animais, pela ética do amor ou do cuidado?

Amor ou justiça: por que a ética do cuidado é mais eficaz A premissa de…

2 meses ago

Por que não é uma boa ideia usar o termo “feito de plantas”

Pode parecer coerente usar o termo “feito de plantas” em relação a alimentos ou pratos…

2 meses ago