A banalização da vida de animais explorados para consumo nunca deixa de surpreender. Em uma matéria publicada no G1 é afirmado que há nove vezes mais bovinos e galináceos no Brasil do que humanos, uma informação que não volta-se à dimensão do impacto dessa realidade-finalidade.
Ao mesmo tempo em que destaca que há um rebanho de 1,8 bilhão desses animais no país, não informa que em apenas três meses ocorre uma matança de 1,56 bilhão de frangos, conforme cálculo em que nos baseamos em dados do IBGE. Logo qual informação é mais impactante? A que é exposta ou a que não é?
A comparação torna-se mais aberrante se usamos esse segundo número como referência e multiplicamos por quatro (chegando aos 12 meses) – porque assim o número de frangos mortos já ultrapassa os 6,2 bilhões, apequenando a conclusão de nove vezes mais, se só de mortos por ano isso significa mais de 30 vezes o total da população brasileira, e sem considerar todos os outros animais explorados para tal fim.
Ou seja, a realidade da discrepância entre humanos no país e animais mortos em decorrência da exploração para consumo é muito mais aberrante se contabilizamos os que morrem no decorrer de um ano, e não só aqueles que estão vivos hoje. Até porque isso é reducionista já pelo fato de que frangos são mortos com 30 a 45 dias de idade.
Assim a contabilização baseada no agora pode levar a uma conclusão equivocada de que esse é o total de animais que deve ser pensado, sendo que animais estão nascendo e morrendo o tempo todo para fins humanos. Por isso é importante considerar o que ocorre em um período de um ano, que dá uma dimensão mais totalizante da violência institucionalizada.
O que também chama atenção na matéria “Brasil tem 9 vezes mais gado e galinha do que gente” é que criaram uma arte sob o título “Batalha das Carnes”, que mostra um boi disputando com um frango quem tem a carne mais consumida no Brasil, ou seja, assim também “brigando pela liderança do volume de carcaças”. E os dois “soltam faíscas pelos olhos nesse conflito”.
O quanto isso, se formos minimamente sensatos, é irrealista e bizarro? Há quem fale em imparcialidade na abordagem da pecuária, mas o tema é sempre explorado com brutal desvantagem para os animais vitimados.
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Veja como uma empresa de comunicação descaradamente patrocinada pela pecuária "informa" a população. Repare nesse trecho do subtítulo da matéria: "Eles produzem muito do que comemos, bebemos e vestimos".
"Eles produzem"; como se esses outros animais, por vontade própria e quase que como um dever para com o homem, dissessem: "Ó, meus senhores, aqui estamos, empenhados em lhes oferecer nossos corpos e nossas secreções, e nossa missão neste mundo não tem sentido se não servirmos a vós"...
Como se o nascimento, o sofrimento e a morte deles não tivessem sido planejados e causados pelo interesse único e exclusivamente humano, pelo lucro, pela cifra, pelo capital.
E você bem destacou na questão da arte, tão abjeta quanto a "normalidade" da notícia: um boi e um frango encarando um ao outro daquele jeito, só faltando o ilustrador colocar o balãozinho de diálogo escrevendo "Sai fora, rapaz! Eu sou o mais comestível, o mais abatido, sou eu que dou mais 'o sangue' pelo meu senhor!"
Vale aqui um pequeno desdobramento do que você cita no penúltimo parágrafo sobre as ilustrações. Agora em relação ao leite. Como é que isso é retratado na animação?
A vaquinha feliz, nadando em seu próprio leite, despreocupadíssima.
"Vacas produzem 84 bilhões de litros de leite por ano!" E ainda têm a pachorra de falarem piscina olímpica... Mais uma vez: "produzem".
Ninguém as estupra. Ninguém coloca nelas, depois de parirem e arrancarem seu filhote de perto, aparatos mecânicos que vão literalmente lhe sugar até a última gota. E quando ela não "produzir" mais a quantidade que eles querem, vai ser morta sem o menor senso de compaixão.
Aí a pessoa que não conhece a cruel realidade da indústria de laticínios (e a de ovos também) imagina o quê?
Essa matéria é um "prato cheio" para análise do discurso! Com o perdão do trocadilho.