Categorias: Pequenas Narrativas

Se um boi observa um boi sendo morto, desejará esse boi ser morto?

Se um boi observa um boi sendo morto, desejará esse boi ser morto? Aceitaria esse fim se dependesse dele evitá-lo? E quando há aceitação? Quem diria o contrário mesmo que o boi não passasse por essa experiência?

Se vejo esse boi de olhos arregalados e confinado para também ser esfolado, só posso imaginar o impacto da impossibilidade de escapar. Se não vivo essa experiência, e não sou o boi, claro que só posso idear.

Mas ideando não privo-me de pensar que o que é inevitável para o boi é o que torna a situação pior para o boi. Não é dada ao boi a possibilidade de fugir, e a fuga, quando existe, só é fuga pelo que é humanamente impensado.

O boi não pode fugir porque é a forma do lucro que foge, do adiamento em ser vendido para ser consumido. A vida então é irrealização pelo que no momento não pode ser não vida. É o retardo do fim, a resistência do corpo.

Se estão diante de um animal vivo e dito saudável, logo não estão mais, e então estão para de novo não estar. É um contínuo estar e não estar, de um chegar para não chegar. É um que se vá para que outro ocupe por brevidade esse lugar.

Se é somente uma imagem, também estamos diante de quem esteve aqui e já não está mais. Mas mesmo que não esteja, sua expressão não persiste pelo que demanda mudança? Quando a vida que o boi emana diante da pressão pela não vida desaparece de uma imagem que materializa a vida resistente à ausência de vida?

Ver o animal que já não vive, e que persiste pela imagética do momento, não deixa de implicar na importância do reconhecimento do que sua condição evoca. É um animal já partido, mas não continua evocando uma não partida?

Leia também “A luta de um boi que não escapou do matadouro“, “O homem que desistiu de matar boi” e “O boi não é mais do que o interesse humano?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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