Animais, pela ética do amor ou do cuidado?

Por que a ética do cuidado, fundamentada na justiça e não no sentimento, é a base mais sólida e inclusiva para a defesa dos animais

Animais, pela ética do amor ou do cuidado?

Amor ou justiça: por que a ética do cuidado é mais eficaz

A premissa de que devemos salvar ou cuidar de animais porque os amamos é problemática. A ética do amor se sustenta nesse sentimento, que não tem condições de ter um apelo a quem não ama animais, enquanto a ética do cuidado não depende do amor, mas somente de reconhecer que um animal tem interesses e que temos responsabilidade sobre sua condição doméstica que é também de vulnerabilidade e necessidade de cuidado.

A ética do amor, mesmo quando favorece outros animais, está focada em nós (nossa capacidade de sentir algo bom por eles), porque é indissociável desse sentimento, enquanto a segunda reflete um projeto de justiça antiespecista. Essa distinção foi captada de forma incisiva pelo escritor sul-africano J.M. Coetzee, vencedor do Nobel de Literatura, que, ao abordar os direitos animais, declarou: “Não sou um amante dos animais. Animais não precisam do meu amor. Não me preocupo com amor, me preocupo com justiça.”

O problema da ética do amor: uma transação afetiva

Se toda a nossa ética em relação a humanos fosse baseada simplesmente no amor, não teríamos nenhum dever ou responsabilidade em relação a quem não amamos. O que nos sustenta como sociedade, afinal, não é o amor, mas o reconhecimento de direitos, a noção de justiça e a rede de deveres e responsabilidades que temos uns para com os outros, independentemente de sentimentos que podem ser voláteis.

A origem de tudo: domesticação como projeto colonial

Para entendermos a importância da ética do cuidado como mais relevante do que a ética do amor, precisamos rastrear suas origens em um processo mais profundo: o colonialismo sobre os animais, também conhecido como dominação e domesticação, que criou tanto a ideia de “animais de companhia” como “animais de trabalho” e “animais de produção” – termos que já carregam o peso da utilidade como imposição.

A domesticação não foi um simples acordo de mutualidade, foi um projeto de reorganização radical da vida animal para atender exclusivamente às necessidades humanas. Por meio desse processo, redefinimos seus corpos ao selecionar geneticamente espécies para torná-las mais dóceis, “produtivas” ou “úteis” – suprimindo suas características selvagens.

Também controlamos suas existências ao determinar o que comem e por que comem, onde vivem e por que vivem, com quem se reproduzem e por que se reproduzem e quando morrem (que é indissociável da finalidade). Enfim, criamos uma hierarquia de valor em que os animais “domésticos” foram colocados em uma categoria em que seu valor foi definido por sua serventia para nós.

Quando o amor é poder: a dominação na linguagem do afeto

Dentro dessa estrutura colonialista, a relação com os animais já nasce estruturalmente assimétrica. E é aí que a “ética do amor” se revela não como uma solução, mas como uma ferramenta que pode perpetuar essa lógica de poder. Pois, sob essa ótica, o bem-estar do animal continua condicionado ao nosso interesse sobre ele – apenas trocando a linguagem da utilidade pela linguagem do afeto.

O animal deixa de ser um “recurso” para se tornar um “objeto de nosso amor”, mas sua existência ainda é definida por seu lugar em relação a nós. E se fazemos isso, claro que não é por má intenção, e sim porque sequer percebemos como reproduzimos esses valores – valores que passam a operar a partir do colonialismo sobre os animais não humanos, e que precede o colonialismo humano.

Dessa forma, o “amor” pelo animal doméstico se torna a contrapartida afetiva que justifica e normaliza o domínio. Nós nos tornamos os “guardiões”, os “provedores”, os “amores” de seres que, como espécie, colocamos em uma posição de dependência total. E o maior êxito desse colonialismo está em achar que esse arranjo é natural e desejável para eles, sendo que nunca foi uma escolha definida por eles.

Sintomas de um vínculo colonial: da gratidão obrigatória à frustração

A necessidade de interação constante, a expectativa de gratidão e a frustração com um animal arisco são sintomas contemporâneos dessa relação colonialista. São, mesmo que irrefletidamente, micromanifestações de um controle internalizado e normalizado, mesmo que revestido de boa intenção. Acreditamos que, por amá-los, temos o direito de suprimir sua agência – de ditar os termos da interação.

A ética do cuidado como ato de descolonização

Diante disso, a ética do cuidado se revela não como uma alternativa sentimental, mas como um projeto de descolonização. É uma tentativa de desmantelar essa estrutura de poder, questionando a própria normalidade da relação que construímos. Cuidar, nesse sentido radical, significa devolver agência sempre que possível. Significa respeitar o “não” de um animal, seu desejo de ficar sozinho, sua natureza não domesticada – mesmo dentro de um corpo moldado por nossa intervenção milenar. É reconhecer que o maior ato de respeito para com um ser que, como espécie, colonizamos pode ser, justamente, deixá-lo em paz.

A ética do amor, no entanto, carrega consigo a expectativa de um retorno afetivo. Sob essa lógica, cuidamos de um animal na expectativa de que ele nos retribua com gratidão, fidelidade e demonstrações de carinho. Quando um animal é assustado, independente ou simplesmente não reage da forma “fofa” que idealizamos, nossa motivação pode se esvair. Nosso suposto “amor” se revela, assim, uma transação emocional não assumida.

A ética do cuidado, ao contrário, nos liberta dessa pressão. Ela nos convida a cuidar de um animal simplesmente porque é o correto a se fazer. Ela nos permite respeitar a natureza independente de um gato (que não deixa de existir nos limites da sua dependência), a timidez de um animal resgatado ou a mera existência de um porco ou de uma galinha em um campo, sem exigir deles nada em troca. É a forma mais genuína de respeito: a que não apenas não instrumenaliza nem os coisifica como também não cobra reciprocidade afetiva.

Para além do amor: a inclusividade radical da justiça

Por fim, a ética do cuidado é radicalmente mais inclusiva. Ela demonstra que não é preciso “amar” os animais para agir com integridade em relação a eles. Podemos nos responsabilizar por vidas não humanas por um reconhecimento de justiça reparadora, ou simplesmente por entender que é o correto a fazer – garantir que um ser senciente tenha suas necessidades atendidas porque essa é uma necessidade dele e não um desejo nosso. É uma ética que, ao abdicar do sentimento como fundamento, constrói uma base de ação muito mais ampla, sólida e verdadeiramente justa.

Devemos lembrar que o veganismo e o antiespecismo não são fundados no amor, mas na justiça. Ninguém exige que amemos refugiados, pessoas de outras etnias ou classes sociais para reconhecer que merecem direitos básicos. Exigimos isso por um princípio de justiça. Por que, então, a barreira para considerar a causa animal deve ser um sentimento tão específico e volátil quanto o amor? Há uma urgência em desromantizar a causa e sair do “nicho de amantes de animais”, envolvendo tanto os animais com quem convivemos em casa quanto aqueles já submetidos a interesses de exploração e consumo.

No fim das contas, se levamos a sério a ideia de reconhecer os animais como seres individuais – com suas próprias vontades, preferências e direito à autonomia –, então a ética do cuidado é a única verdadeiramente condizente com esse reconhecimento. Cuidar de um animal, respeitando sua inerência, é sempre sobre respeitar a integridade do outro. E é nessa base de respeito, e não na areia movediça do sentimento, que podemos construir uma relação verdadeiramente justa com os seres sencientes que compartilham este mundo conosco.

O desafio final: uma descolonização interna

É crucial percebermos que ainda vivemos imersos em uma lógica que equipara cuidar a estabelecer afeto e intervenção. Seja ao forçar uma interação para um “carinho”, seja ao humanizar seus comportamentos, nós frequentemente avançamos sobre a individualidade do animal em nome do “amor”.

Essa intervenção, por mais bem-intencionada que seja, parte do pressuposto de que o animal é um objeto passivo de nossa afetividade, e não um sujeito ativo de sua própria experiência. O verdadeiro cuidado começa quando nossa intervenção se limita a garantir o seu bem-estar, respeitando, acima de tudo, o seu direito ao espaço, ao silêncio e à própria vida interior – mesmo que isso seja incompreensível ou pouco afetuoso para nós.

Problematizar a expectativa de gratidão sobre um animal ou sugerir que nossa “bondade” pode ser opressiva é frequentemente recebido com incompreensão ou até hostilidade. Assim, talvez a prova mais clara de que essa estrutura é colonialista e está internalizada seja a reação de rejeição a essas próprias ideias.

Reconhecer que nosso “amor” pode ser uma forma de poder nos coloca em um lugar de desconforto moral profundo. É desconfortável encarar a complexidade e a possibilidade de que, mesmo como defensores dos animais, podemos reproduzir dinâmicas de dominação até com animais removidos de situações de dominação (animais resgatados de maus-tratos, de situações de exploração e de matadouros). Isso pode facilmente ser imperceptível porque é algo que se opera a partir da dinâmica do afeto.

Portanto, adotar a ética do cuidado não é apenas uma mudança de tática, é um ato de descolonização interna. É um trabalho contínuo e desconfortável de desmantelar, dentro de nós mesmos, as estruturas que nos ensinaram que cuidar é controlar, que amar é possuir e que o valor de um animal é uma concessão de nosso afeto.

Um exemplo emblemático dessa postura vem do filósofo utilitarista Peter Singer, cujo livro “Libertação Animal” é considerado um marco do movimento em defesa dos animais. Ele relata ter surpreendido um casal na Inglaterra ao declarar que “não tinha animais”. A expectativa era que Singer fosse, inevitavelmente, um “amante de animais” no sentido convencional – “um colecionador de afetos peludos”.

A declaração de Singer quebrou esse estereótipo justamente porque sua perspectiva não foi moldada pela lógica doméstica da posse e do afeto condicional. Seu olhar, de certo modo “externo” àquela dinâmica, permitiu-lhe enxergar com clareza cirúrgica a inconsistência ética de tratar um cão como um membro da família e um porco como um produto. Essa foi uma demonstração prática de que a ética pode e deve operar de forma mais ampla e consistente do que o sentimento.

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Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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