
O filme “Bugonia”, de Yorgos Lanthimos, começa e termina com as abelhas polinizando flores. Mesmo quando a humanidade é “desativada”, as abelhas continuam habitando a Terra. Esse desfecho pode ser usado simbolicamente para pensarmos também a instrumentalização das abelhas. Afinal, se elas continuam aqui, mesmo quando já não estamos, então o ciclo de instrumentalização delas pelo ser humano também foi rompido. Portanto, o mundo natural segue seu curso.
O fato de elas continuarem no mundo sem nós confronta diretamente o antropocentrismo e a ideia do “lugar de cada um no ecossistema”, que tende a ser pensado mais como a “abelha nos servindo”. Não por acaso, mesmo quando humanos dizem que as abelhas são mais importantes para o ecossistema, eles não costumam ver problemas na exploração de abelhas.
Logo, a instrumentalização das abelhas favorece o próprio impacto negativo sobre as abelhas, já que há uma contradição inerente: supostamente reconhecer um “valor mais elevado das abelhas” ao mesmo tempo que a condenação do que as prejudica vem também com a ideia de naturalização do uso das abelhas para fins humanos; que se insere também nos mecanismos do que Bourdieu chama de habitus. Ou seja, que se refere às disposições internalizadas, aos modos de perceber, pensar e agir que são socialmente construídos e parecem “naturais”.
Abelhas geram mel para si mesmas
No início de “Bugonia”, Teddy (Jesse Plemons) enaltece as abelhas para seu primo Don (Aidan Delbis), mas também as vê como um meio para um fim: a produção de mel que, na verdade, as abelhas geram para si mesmas, não para outras espécies. Essa atitude evidencia a contradição humana. Mais tarde, mesmo sendo apicultor, ao questionar Michelle (Emma Stone) sobre o que ela admira nas abelhas – ela cita a sociedade complexa, a ética do trabalho, etc. –, Teddy responde, em tom reprovador, que tudo o que ela citou é justamente o que facilita a exploração delas.
Teddy, paradoxalmente, ignora que ele próprio também participa disso e normaliza isso. Mas ele projeta essa visão somente no “outro”. Ou seja, há uma admiração impregnada de uma lógica utilitarista que ele reconhece somente na fala de Michelle (que para ele representa também o mal do corporativismo – já que ela é a CEO de uma grande empresa farmacêutica que ele responsabiliza pelo “declínio das abelhas”). E não sabemos se, no caso dela, essa percepção das abelhas surge com sua condição não humana (ela não é uma terráquea e Teddy sabe disso) ou se é algo que ela desenvolve ao adotar o habitus humano na Terra. Ou se Michelle usa isso até mesmo como uma provocação e um teste contra Teddy – que, naquele contexto, independentemente do que ela sabe sobre ele, é quem se apropria do que é produzido pelas abelhas.
Assim, o que torna esse momento tão revelador é reconhecer que tais características facilitam a exploração da qual Teddy se beneficia, mas sem que ele olhe para as suas próprias práticas. A força dos mecanismos do habitus então é tão dominante que a contradição pode prevalecer sob a normalização de um recorte.
Isso reflete o próprio mundo, a realidade ordinária e a desconexão que encontramos diariamente na mídia – em suas publicações em que o declínio das abelhas prejudica o viver humano porque impacta em “nosso sistema alimentar”; e que a “ecologia das abelhas” tem sua relevância no que nos favorece. Logo, a própria abelha é subtraída da equação, porque não é sobre ela, mas sobre o que se pode obter a partir dela; que é também tirar dela.
Sua identidade, mesmo nas narrativas tratadas como “favoráveis às abelhas”, é reduzida a um serviço ecossistêmico que tem como fim o ser humano. É muito raro encontrar alguma publicação na mídia que não fale das abelhas sob o viés da instrumentalização. Afinal, a consideração mesmo ecológica é estritamente antropocêntrica. A pergunta que devemos fazer então é: “Qual seria o lugar das abelhas se não tivessem sua importância reduzida às maiores polinizadoras de alimentos?”
“Abelhas como servidoras do mundo” é uma construção humana
Como Teddy observa no início de “Bugonia”, elas “polinizam um terço dos alimentos do mundo” e, segundo ele, “isso mostra o quanto elas são vitais”. Mas se o que consideramos é isso, então é sobre o papel e não sobre o ser – o que é importante para ele em suas próprias necessidades. Não havendo então o papel, o ser não importa? Há uma violência ontológica nisso.
Em “Bugonia”, as abelhas, ao contrário dos humanos, persistem – o que pode sugerir também que, em uma escala evolutiva ou ecológica, elas estão mais integradas ao planeta do que nós. Isso favorece em nossa interpretação, e também levando em conta o conceito de “morte do autor”, de Roland Barthes, uma consideração de duas camadas – “as abelhas estão servindo ao mundo” (algo que provavelmente elas não incorporam como missão, mas o fazem por um imperativo biológico do seu próprio viver) e ao mesmo tempo uma anulação da tirania de uma missão determinada sobre elas pelo interesse humano que não escapa ao imperativo do antropocentrismo – que é o mesmo que as instrumentaliza para fins de consumo e lucro.
De qualquer forma, é importante insistir na conclusão de que as “abelhas como servidoras do mundo” é uma construção humana. A conclusão mais justa é que elas são do mundo e não que servem ao mundo. Sua ação (polinizar) não é um serviço prestado a um cliente (o ecossistema), mas uma expressão de seu modo de existência.
É um fazer que emerge do ser, não um ser que se justifica pelo fazer. A flor não é um “beneficiário”; é um parceiro em uma relação simbiótica de milhões de anos, da qual a abelha é um polo ativo, não um servo.
Em “Bugonia”, onde Teddy acredita vocalizar o resgate à autodeterminação humana, que ele vê ameaçada por extraterrestres, podemos reconhecer como o especismo nos permite dissimular sobre a autodeterminação de outras criaturas – como as abelhas, reduzidas “às suas funções na construção humana”.
A humanidade “desativada” e a continuidade das abelhas
Ainda assim, a humanidade desativada ao final do filme e as abelhas seguindo suas vidas é simbolicamente uma cena de grande potência contra a lógica antropocêntrica – inclusive ecológica. É seu antípoda absoluto. É também um rechaçar ecológico. Somos convidados a nos ver não como gestores ou salvadores, mas como participantes temporários e talvez disfuncionais.
E sendo “Bugonia” uma palavra do grego antigo, que se refere à geração espontânea de abelhas a partir de cadáveres de animais (um mito que reflete a ideia de que as abelhas surgem de algo em decomposição, um ciclo de morte e regeneração), a partir do filme, nos permite pensar na ideia de que mesmo da “morte” da humanidade, a vida (abelhas, natureza) se regenera. Também pode nos permitir aludir à forma como os humanos veem as abelhas como “produto” de um sistema (apicultura), esquecendo que elas têm uma existência autônoma. Portanto, “Bugonia” pode ser lido como um espelho crítico da humanidade.
Ao final do filme, com a “desativação” da humanidade, não estamos diante do fim do mundo, mas do fim de um mundo; o mundo como palco onde a humanidade é protagonista (na sua crença) e a natureza é o cenário ou o recurso. O mundo-em-si continua, floresce até, sem a narrativa humana para enquadrá-lo. A abelha é liberta até mesmo da “necessidade” de ser “salva” por nós. Sua existência deixa de ser um problema a ser gerido (a crise dos polinizadores) e torna-se novamente um fato do mundo.
Ademais, há também a vitória do habitus do ecossistema sobre o habitus humano, se entendemos que o habitus não é apenas um conjunto de práticas sociais, mas também um regime de atenção e valor. O habitus antropocêntrico dirige nossa atenção para as abelhas como meio. O habitus do ecossistema (aquele que segue operando após nossa desativação) simplesmente as integra como fim em si mesmas, como “nós na teia”. A cena final restaura esse regime de valor não humano.
Por fim, aceitar nossa “dispensabilidade” é o primeiro passo para uma ética não instrumental. Porque só quando reconhecemos que o mundo não precisa de nós, podemos começar a nos relacionar de forma mais justa com ele e com os seres que o habitam.
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