Uma senhora vizinha morreu, segundo dois cães mestiços que tentavam invadir a casa. Latiam sem parar depois de deixar marcas de garras na porta da cozinha. Esculpiram emaranhado de riscos, sincretismo de sentimentos. Sentiram sua ausência antes de testemunhá-la morta, caída na cozinha, vítima de AVC.
Cavaram no quintal, na ingênua tentativa de chegar até ela. Só abandonaram o buraco quando ouviram alguém abrindo o portão. Era o filho. “Mãe…mãe…cheguei!” Lorenzo e Matino se aproximaram com focinhos cobertos de terra.
Desafinados pela estafa e pela desarticulação da surpresa lamentaram como crianças órfãs que ainda não aprenderam a falar. Lágrimas escorreram, assim como o uivo fragilizado e prolongado que, oscilante, se perdia. O filho abriu a porta e os cães se adiantaram até a cozinha. Lamberam as mãos da mulher que já não existia.
O rapaz levou a mão à boca, reprimindo som e engolindo bafo quente. Enxugou lágrimas na camisa e chamou o Samu. “Não há mais o que ser feito.” Circulando o corpo, Lorenzo e Matino uivaram e, sem fazer barulho, lamberam as mãos do rapaz.
Logo embalaram o corpo em um saco de PVC e partiram. O filho foi atrás, noutro carro, acompanhado por Lorenzo e Matino. Com a cabeça atravessando a janela, seguiram uivando para o nada, ou para o tudo, já que a vida celebra a morte tanto quanto a morte celebra a vida.
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