A morte da senhora vizinha

Desafinados pela estafa e pela desarticulação da surpresa, lamentaram como crianças órfãs, que ainda não aprenderam a falar

O anúncio foi feito por dois cães (Pintura: Jonelle Summerfield)

Uma senhora que morava na minha rua morreu, segundo dois cães mestiços que tentavam invadir a casa. Uivaram e deixaram marcas de garras na porta da cozinha. Em poucos minutos, esculpiram emaranhado de riscos, sincretismo de tristeza e desespero. Sentiram sua ausência antes de testemunhá-la morta, caída na cozinha, vítima de AVC.

Cavaram no quintal, na ingênua tentativa de chegar até ela. Não se deixaram abater. Só abandonaram o buraco quando ouviram alguém abrindo o portão. Era o filho. “Mãe…mãe…cheguei!” Lorenzo e Matino se aproximaram com focinhos cobertos de terra.

Desafinados pela estafa e pela desarticulação da surpresa, lamentaram como crianças órfãs, que ainda não aprenderam a falar. Lágrimas escorreram, assim como o uivo fragilizado e prolongado que, oscilante, se perdia. O filho abriu a porta e os cães se adiantaram à cozinha. Lamberam as mãos da mulher que já não existia.

O rapaz tapou a boca e gritou, reprimindo som e engolindo bafo quente. Enxugou lágrimas na camiseta e chamou o Corpo de Bombeiros. “Não há mais o que ser feito.” Circulando o corpo, Lorenzo e Matino uivaram. Roufenho, o filho berrou: “Perdão, mãe! Perdão!” Sem fazer barulho, os cães se aproximaram e lamberam as mãos do rapaz.

Após a chegada dos funcionários da funerária, embalaram o corpo em um saco de PVC e partiram. O filho foi atrás, noutro carro, acompanhado por Lorenzo e Matino. Com a cabeça atravessando a janela, seguiram uivando para o nada, ou para o tudo, já que a vida celebra a morte tanto quanto a morte celebra a vida.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here