
Em 2024, a receita líquida global de uma única empresa, a transnacional brasileira JBS, superou em quase 35% o mercado global de alimentos plant-based, ou seja, alimentos à base de vegetais que estão sendo vendidos como “alternativas” aos alimentos de origem animal.
A receita da JBS foi de 77,2 bilhões de dólares (R$ 417 bilhões) e o mercado global de alimentos plant-based foi estimado em quase 57 bilhões de dólares (The Business Research Company, 2025), mas movimentando cerca de 28,6 bilhões no varejo em “substitutos de carnes, laticínios e ovos”.
Portanto, quando a análise se concentra nesses produtos, o contraste é ainda maior: as vendas globais desses itens somam menos da metade do faturamento líquido de uma única empresa frigorífica.
Um abismo de escala: o mercado plant-based diante da hegemonia da indústria animal
Esses números mostram o abismo que existe hoje entre a oferta e demanda de produtos de origem animal em comparação aos alimentos à base de vegetais. Só a produção global de carne em 2024 atingiu a marca de 371 milhões de toneladas, envolvendo mais de 80 bilhões de animais terrestres e mantendo um constante crescimento que superou até a estimativa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – de 365 milhões para o mesmo ano. O aumento em comparação a 2023 foi considerado “um recorde histórico para a oferta global de carne”.
Esses valores, por si só, já demonstram que o mercado plant-based, como ator econômico, é estruturalmente incapaz de rivalizar ou superar a indústria animal em um horizonte previsível. E porque a indústria animal não é um concorrente a ser superado com a mera oferta de produtos. É uma estrutura econômica hegemônica, cuja dimensão e consolidação tornam a ideia de transformação via nicho de mercado uma aposta ingênua – porque inverte a lógica ao apostar em produtos ignorando a importância da mudança cultural.
Essa diferença não é apenas entre toneladas e dólares, mas entre uma infraestrutura produtiva massiva e consolidada e um mercado de nicho cujo valor financeiro total ainda é uma fração ínfima do sistema alimentar global. A crença de que a lógica de oferta e demanda desse nicho será o motor principal de uma revolução alimentar ignora completamente a magnitude material do sistema hegemônico atual.
Hegemonia cultural: o alicerce que o mercado ignora
Sua materialidade é fortalecida pela hegemonia cultural, como podemos sustentar a partir dos estudos de Gramsci. Afinal, a indústria animal prospera porque o “senso comum” dominante e ainda praticamente intocado é o do uso de animais para fins no consumo humano. Portanto, ao não desestabilizar os significados culturais que envolvem os mecanismos do habitus (Bourdieu), ao subestimar a importância das mediações culturais (Martín-Barbero) que precedem o mercado, o próprio mercado também será negativamente impactado por essa subestimação.
Mesmo os principais relatórios que vêm do próprio setor, como os do The Good Food Institute (GFI), que também atua no Brasil, confirmam o diagnóstico, mas não a estratégia. Eles identificam que muitos produtos “não atendem às expectativas de sabor e preço dos consumidores” e que a “paridade de sabor e preço” é essencial. Reconhecem até que a carne tem um valor simbólico central e que os “substitutos” são vistos como “restritivos”. No entanto, a conclusão não é a de que é preciso disputar esse significado cultural. A solução proposta se resume a uma lista de ajustes técnicos e de marketing para tornar o produto mais atraente dentro da mesma lógica de consumo.
Essa abordagem reforça a aposta ingênua: acredita que a mera substituição de atributos sensoriais na prateleira, sem uma disputa pelos significados que estruturam o habitus e o senso comum, será suficiente para desmontar uma hegemonia cultural e econômica consolidada. É, no fundo, esperar que o mercado resolva sozinho um problema que é anterior e mais profundo do que ele.
A indústria animal não criou os significados que a consolidaram
Como já argumentei em outros textos, a indústria de produtos de origem animal não criou os significados que a consolidaram, mas se valeu dos significados que já existiam e que legitimaram o uso de animais como fim no consumo humano. A indústria animal não precisa criar novos significados.
Sua força está em reforçar e explorar os já enraizados no “senso comum”, utilizando diversos mecanismos – que envolvem tradição e identidade; naturalização do processo; nutrição e saúde; economia e subsistência; e sua própria ubiquidade em todas as classes sociais. Portanto, ao não disputar os sentidos que precedem o mercado, se ignora o alcance da hegemonia: a indústria animal está tão entranhada na vida material e simbólica que, para a esmagadora maioria, seu consumo não é uma escolha entre outras, mas a própria definição do que é natural, inevitável e necessário.
Isso torna a aposta em uma transformação via “concorrência de nicho” ainda mais ingênua. Como um nicho de mercado poderia rivalizar com um sistema que é, ao mesmo tempo, alimento básico, commodity de luxo, política de estado, fonte de emprego e ritual de pertencimento? A resposta é que não pode. A mudança só virá quando o movimento vegano conseguir disputar essa hegemonia de significados e práticas em cada uma dessas esferas. Enfim, na cultura, não apenas na prateleira ou no expositor refrigerado.
A indústria só muda quando o consumidor muda
Analisando os mecanismos de consumo a partir dos estudos culturais, e compreendendo que o consumidor não atua passivamente, é inevitável concluir que a indústria só muda quando o consumidor muda. Portanto, a mudança não depende dela, mas do que ocorre primeiro fora dela. Transformar uma indústria exige primeiro uma mudança cultural (senso comum, valores), que gera uma nova demanda, e só então provoca uma adaptação mercadológica.
Enquanto a crítica se concentrar apenas no “fornecedor” (a indústria) e não no “demandador” (a cultura e o consumidor que a sustenta), estaremos lutando contra sombras. A verdadeira mudança estrutural começa quando entendemos que o poder de desmontar um sistema hegemônico não está em esperar que o mercado o faça, mas em trabalhar incessantemente para que a sociedade que alimenta esse mercado mude de ideia. A mudança depende do poder de ação coletiva consciente; da capacidade de as pessoas, organizadas, alterarem o senso comum e, com isso, reconfigurarem o mundo material.
O mercado não deixará de ser um reflexo do “senso comum” cultural. Ele só mudará quando houver uma guerra de posição bem-sucedida para transformar o senso comum. Do contrário, estaremos apostando em uma estratégia que não resultará em mais do que existir paralelamente ao domínio da indústria animal.
O “agro” no senso comum: a blindagem política e cultural de um modelo
Para termos uma ideia da dimensão da ampla hegemonia cultural especista que favorece o agronegócio brasileiro, o setor, que tem a agropecuária como carro-chefe, teve um PIB estimado em R$ 3,13 trilhões em 2025. Isso expõe uma diferença aberrante. Portanto, só os números nacionais do setor podem equivaler a dezenas de vezes o mercado global de alimentos plant-based. E mais, o setor continua crescendo, não diminuindo nem mantendo os mesmos números. Logo, é um sistema hegemônico em plena vitalidade.
O agronegócio atua ativamente para se construir no “senso comum” como o modelo único e imprescindível para o campo brasileiro, utilizando intensamente os meios de comunicação de massa (propaganda, música, novelas) para disseminar uma visão que preserve a força da agropecuária e seu lugar de favorecimento no imaginário coletivo. A narrativa de que o “agro é tec, agro é pop, agro é tudo” e o principal estabilizador da economia nacional é constantemente reforçada. Essa imagem, somada ao PIB, cria uma blindagem política e social poderosa, tornando críticas estruturais ao modelo algo “interditado” no debate público.
Não por acaso, a prioridade do agronegócio brasileiro é a agropecuária. Isso se reflete no próprio nome da Bancada Ruralista no Congresso Nacional, que é oficialmente Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), o que simbolicamente nunca deixa de enaltecer quais áreas do agro são prioritárias. E a bancada trabalha ativamente não apenas para manter como para fotalecer a produção agropecuária como prioridade de Estado.
O desafio não é apenas econômico ou de oferta de produtos
Esses fatores fortalecem a conclusão de que o desafio ao sistema alimentar vigente não é apenas econômico ou de oferta de produtos. É uma disputa contra uma estrutura hegemônica entranhada na economia, na política e, fundamentalmente, no imaginário cultural da sociedade. Portanto, seria extremamente ingênuo acreditar que é possível superar isso no campo da mera oferta de produtos.
Assim, enquanto o agronegócio que usa todos os meios possíveis para fortalecer a agropecuária atua no nível estrutural e imaginário, o mercado plant-based opera no nível superficial do consumo. A disputa é desigual porque ocorre em campos diferentes: um disputa a manutenção do senso comum e o projeto de país; o outro, a preferência do consumidor no corredor do supermercado.
A transformação do sistema alimentar não será uma vitória do mercado, mas uma consequência de uma vitória cultural. O nicho plant-based pode ser um sintoma dessa mudança e uma ferramenta tática para quem já está convencido ou para quem já tem uma predisposição, mas jamais sua causa eficiente. Além disso, a celebração “do crescimento percentual estratosférico do mercado plant-based”, quando ocorre, esconde uma realidade matemática cruel: a indústria animal é tão colossal que um aumento ínfimo em sua base gera um acréscimo absoluto de valor maior do que todo o avanço do “nicho alternativo”.
Isso não é uma desqualificação do setor plant-based, mas uma exposição da escala descomunal do sistema hegemônico que se pretende transformar. Confundir dinamismo percentual com capacidade disruptiva real é um erro que leva a uma aposta ingênua na transformação via oferta de produtos.
O campo de batalha decisivo: a cultura do significado
Enquanto o movimento vegano comemora crescimento percentual em um nicho, o sistema que ele deseja substituir se expande de forma materialmente avassaladora. A única forma de reverter isso é reconhecendo que o mais importante campo de batalha está na cultura do significado. Ignorar isso é insistir nos problemas que trago nos recentes artigos “Por que as maiores marcas de carnes vegetais estão em declínio?”, “Por que a fé cega no mercado pode ser a derrota do veganismo” e “Por que a carne cultivada não libertará os animais”.
Outro exemplo a ser considerado é que nos EUA, referência global em mercado plant-based e onde se cria produtos que tendem a ser replicados em outros países (incluindo o Brasil), o volume total de vendas de carnes vegetais já caiu 26% em comparação com 2021 (Just Food, 2024). Relatórios do setor e análises de mercado indicam que a decisão de consumo ainda é majoritariamente guiada por fatores como preço, sabor imediato e conveniência, e não por uma ressignificação ética ou cultural duradoura. Esse cenário demonstra que, sem a disputa pelo habitus e pelos significados culturais que naturalizam o consumo animal, a adesão a esses produtos tende a ser superficial e reversível, incapaz de sustentar a escala necessária para uma transformação estrutural do sistema alimentar.
A verdadeira disputa, e a única que pode abalar a hegemonia, é a que ocorre no campo das ideias, dos valores e dos significados. É a disputa pelo senso comum, para desnaturalizar o consumo animal e apresentar um novo imaginário de relação com os alimentos à base de vegetais. Sem uma batalha cultural, qualquer avanço no mercado será sempre marginal, reversível e incapaz de tocar a estrutura de poder real. Essa análise reforça a necessidade de estratégias de ativismo focadas em comunicação, educação, arte e política; enfim, muito além do consumo.
Não se supera uma hegemonia cultural apenas com produtos
Por fim, o “abismo” não é apenas econômico, mas a expressão material de uma hegemonia cultural consolidada. Tentar superá-lo apenas com produtos, sem antes desestabilizar profundamente o habitus que o sustenta, é como tentar esvaziar um oceano com um copo. Disputar essa corrida no campo do mercado e nesse modelo atual é aceitar jogar no tabuleiro e com as regras do adversário mais forte.
O movimento vegano pode celebrar “vitórias” de “grandes percentuais” de crescimento, enquanto a indústria animal, com um crescimento de 1% ou 2%, adiciona ao mundo, em um ano, o equivalente a dezenas de “mercados de produtos plant-based” inteiros em volume de produção animal.
A corrida focada na disputa meramente mercadológica desvia energia e recursos (financeiros e intelectuais) para uma batalha que, nas atuais condições culturais, não pode ser vencida no campo econômico. E pior, ela dá uma ilusão de progresso que paralisa a reflexão sobre a única batalha que poderia mudar as condições do jogo a longo prazo: a disputa cultural pela hegemonia.
Posfácio
Essa disparidade macroeconômica não é uma abstração; ela se materializa no cotidiano dos supermercados. Recentemente, me deparei com uma promoção de dois produtos plant-based perto do vencimento, com grandes descontos – mais de 60%. Itens que custariam de R$ 22 a R$ 24 eram oferecidos por R$ 8. Mesmo com o anúncio destacado e do preço drasticamente reduzido (um cenário que, na lógica de mercado, deveria gerar uma corrida), o estoque não se esgotou.
Na ocasião, adquiri duas unidades de cada. Ao final da promoção, várias unidades ainda estavam no expositor, onde perderam a validade. Esse episódio banal é sintomático. Mesmo quando a barreira do preço é removida, a demanda efetiva por esses produtos permanece ligada a um grupo muito restrito e de consumo esporádico. Eles não se converteram em itens de desejo massivo. São artigos especiais que disputam um espaço mínimo nos expositores e nos hábitos alimentares. Isso revela que o desafio não é de precificação, mas de significado e incorporação cultural.
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