Categorias: Contos e Crônicas

Animais não devem ser vítimas do nosso paladar

Pinturas: Hartmut Kiewert

Observavam bois, vacas, porcos, frangos e galinhas que não seriam abatidos. Estavam em local seguro, de onde jamais sairiam para virar algo no prato de alguém. Não que não conhecessem a iminência de tal realidade, já que foram resgatados no dia em que chegariam ao matadouro.

“Sim, foram criados para morrer na hora da conveniência humana, assim como muitos outros. Peso bom de carcaça, pouca produtividade, algum tipo de dissemelhança que definem como deformidade ou temperamento difícil. O dia do descarte ou de virar carne varia conforme a origem do animal e o que se pretende com ele na vida e na morte. Pecuária é assim, não tem novidade, e envelhecer não é opção.”

A ideia da substituição, tão recorrente nesse meio, o incomodava, assim como a seu irmão. “É possível que animais considerados desagradáveis por seus exploradores sejam mortos mais cedo, por serem do tipo que destoam, ‘interferindo no coletivo’. Mas se não ser agradável, assim como ser, é inerência de personalidade ou de estado atual de condição ou molde de vida, considerando imposições e limitações, ou de manifestações de características inerentes à subjetividade do ser, não há clara compreensão de que estão querendo matar mais cedo uma criatura que manifesta também algum tipo de renitência no entendimento humano? E a renitência é manifestação natural de não aceitação, que é também característica comumente associada à articulação, gênio, complexidade social e inteligência.”

“Acredito que sim, mas a produtificação de vidas gera camuflagem que faz entender que trata-se apenas de animal problemático e indesejado, e associa-se com criatura de péssimo trato ou com estupidez e graves limitações, quando na realidade o que esse animal considerado de ‘temperamento difícil’ menos manifesta é isso. A ideia de animal doméstico criado para consumo não significa que seja alguém limitado a uma natureza agradável aos anseios humanos de produção e apetite. Afinal, é criatura consciente e dotada de complexidades. Há comportamentos que o ser humano não entende sobre eles e que leva à punição. Animais criados para consumo são sempre punidos quando não reagem como produtos que se movem.”

Seu irmão apontou para os animais deitados sobre a relva, que balouçava com vento agradável. Assistiam a tranquilidade daquelas criaturas tão distantes da ameaça do lucro e do paladar. Não manifestavam incômodo, desprazer ou qualquer reação negativa em relação ao ambiente. “Isso pode ser definido como alegria. Por que não? E pensar que dezenas de bilhões desses pelo mundo afora jamais terão essa chance antes do ano terminar… Os anseios são os mesmos, aqui e em qualquer lugar, independente da percepção humana, das distorções que sustentamos pela comodidade, pelas formas violentas e negligentes de conforto que surgem pelo domínio e subtração de vidas. Como nos sentimos importantes enquanto destruímos tanto à nossa volta…”

Um porco virava de um lado para o outro enquanto era observado por uma galinha poedeira que voltou a andar poucos dias após ser descartada. “Como são observadoras, e quem observa coleciona percepções, e, mesmo que não as colecionasse, só o ato de dedicar tempo e assistir outra criatura já revela curiosidade social. E assim são tantas criaturas a quem negamos qualquer verdadeiro direito. A dignidade deve ser estendida a todo ser humano, claro, mas não acho que menos direito sobre ela tenha qualquer outra criatura interessada em não ser explorada, sofrer e morrer em benefício de outra espécie.

Um frango aproximou-se deles à sombra da mangueira. Volteou a árvore, ciscou e juntou-se aos outros na relva, mas, de temperamento mais reservado, manteve um pouco de distância. “Tem-se aí um coletivo distante do caráter segregacionista da pecuária. E quantos como este chegam pelo menos aos seis meses de idade? Dezenas de bilhões morrem com 45 dias ou menos no mundo. O que eu ou você fazemos em 45 dias?”

“É realmente estranho. Um tempo que nos parece pouco ou quase nada, para frangos significa nascer, crescer, morrer e ser vendido no açougue. E as pessoas comem com tranquilidade tais criaturas que no mês anterior talvez estivessem nascendo.”

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David Arioch

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

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