Em uma cena do filme “Violência e Paixão”, de Luchino Visconti, o professor, assim que recebe uma ave engaiolada que imita a voz humana, a observa e explica que nunca teve animais em casa. “Animais devem viver em seu ambiente natural”, ele justifica.
Claro que há animais que não sobreviveriam em um ambiente natural, e há animais que sequer têm ou tiveram um ambiente natural. Mas a observação ratifica sua defesa de que animais não foram feitos para a prisão.
Logo como poderia a gaiola ser o ambiente mais adequado para a duração de uma vida, e que expectativa haveria para essa vida tão limitada por um espaço tradicionalmente ínfimo? Mesmo os animais que não somos, por que desejariam a prisão? Pode o confinamento perene satisfazer todos os anseios de um animal?
O professor não gosta do que vê, do animal confinado, e que para silenciá-lo, já que o animal imita a fala humana principalmente diante da presença humana, cobrem a gaiola com um tecido, que funciona também como uma espécie de apagamento do animal – como se não estivesse ali.
Assim, é como se ele só devesse aparecer aos outros, humanos, quando o quisessem, sendo o tecido o marcador de um contato ora desejado, ora indesejado.
Isso, que pode parecer incomum, evoca a realidade ordinária de pássaros e outras aves engaioladas, porque a lógica do engaiolamento é a de tê-los onde quiser e quando quiser, para a apreciação humana; para poder estabelecer uma interação que independe dos interesses do animal.
A ave não tem para onde ir, mas o humano pode encontrá-la e submetê-la ao seu interesse sempre que quiser, porque o animal também é marcado pela vulnerabilidade determinada pelo pouco espaço.
Em “Violência e Paixão”, ela se move energicamente de um lado para o outro. Entre um segundo e outro, já não há o que percorrer, e isso resume o mundo que é permitido a ela tocar.
O filme está disponível no Mubi.
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O ser humano é o pior inimigo feroz do animal .