Categorias: Pequenas Narrativas

Bacon é um pedaço de violência

Pintura: Dana Ellyn

Indiferente às pessoas ao redor, observava uma pirâmide de bacon na vitrine do açougue. Havia um pedaço grande de forma geométrica bem definida, assim como outros – menores que terminavam no que parecia ser um dado de bacon.

Não mudava posição dos olhos nem respondia quando perguntavam-lhe algo. Estava dentro de si, do seu mundo de acepção e conclusão. “É gordura subcutânea da barriga mesmo. Antigamente tiravam também do traseiro.”

Imaginou a barriga do porco aberta como se fosse tipo grotesco de porta, e lá dentro os órgãos se movendo, sinalizando vida, quase saltando para fora antes da inutilização. E ele gemendo, guinchando, com os pés amarrados.

Quem não reagiria à violência contra a própria integridade? Não importa a impossibilidade, a reação é instantânea, por inerência de senciência. O porco, com a cabeça de lado, ainda assistia aos cortes enquanto arrancavam-lhe tudo, até não sobrar partes inteiras.

Restou um oco – como se tivesse nascido sem órgãos ou nem tivesse nascido. Todo lambuzado de sangue, os olhos se moviam, descendo, diminuindo, como se caindo.

Lembrou de um episódio de eletronarcose malsucedida. “Um? Um? Não posso ser econômico. É prática não rara, ora!”, ouviu da própria consciência. “Por trás do bacon, antes de ser bacon, há tudo que é vital ao porco. E quem dá atenção ao que se opõe ao paladar?”

Achou intrigante o cuidado com que o bacon foi fatiado e disponibilizado. “Esmero…pode ser usado para velar uma sombria história.” Pensou no universo do porco abatido com cinco meses de idade, mas referindo-se a ele pensando no coletivo – na sua simbologia elementar.

Imaginou os pedaços de bacon sumindo da vitrine, voltando para o frigorífico, para o matadouro, para a barriga do porco antes do abate. “Ainda não queimaram seus pelos.” E mais, o caminhão que o trouxe não chegou ao matadouro – sequer saiu da fazenda, e o porco que morreu não nasceu.

“Nenhum deles. Isso mesmo.” E lembrou de Percy Shelley: “Seria muito melhor a um ser senciente jamais ter existido do que existir somente para suportar a miséria absoluta.”

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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