O Brasil matou 1,67 bilhão de frangos, suínos e bovinos para consumo no terceiro trimestre de 2019, de acordo com dados do mais recente relatório de abate de animais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) concluído em novembro. Em quantificação de indivíduos, isso equivale a oito vezes a população brasileira.
Os frangos ocupam a primeira posição na linha de abate, somando 1,47 bilhão de mortos para fins alimentícios. O peso acumulado das carcaças foi de 3,45 milhões de toneladas. E você sabia que mais de 15 milhões de frangos são mortos por dia no Brasil?
E não estou falando de um período de maior consumo, mas sim de uma estimativa média baseada em pesquisa do IBGE. No entanto, com a proximidade de feriados e período de festas, esse número pode ultrapassar facilmente 16 milhões por dia. Faz pensar, não?
Normalmente os frangos consumidos no Brasil são mortos com 40 a 45 dias de idade. Ou seja, em um período de no máximo um mês e meio, um frango é condicionado a alcançar o peso de três quilos, o que é considerado ideal para o abate.
Com o rápido ganho de peso, os animais podem sofrer porque seus músculos, ossos e órgãos se desenvolvem rápido, afetando a fisiologia das aves. Também podem surgir agravantes como distúrbios metabólicos, problemas respiratórios, calcificação e deformação óssea.
Esta é a realidade diária de milhões de frangos, animais que, para além da capacidade de sofrer e ter experiências emocionais, possuem capacidade de reconhecer intervalos de tempo, utilizar memórias pessoais de eventos passados e exercer autocontrole que permite antecipar ações futuras, segundo o artigo “Thinking Chickens”, do The Someone Project, coordenado pela neurocientista Lori Marino e pela pesquisadora do ramo de etologia Christina M. Calvin.
Em segundo lugar estão os suínos – 11,67 milhões de porcos foram abatidos no país no mesmo período, com peso das carcaças chegando a 1,05 milhão de toneladas. São dados que chamam a atenção, considerando a capacidade de senciência, consciência e inteligência desses animais.
Mais uma prova disso foi divulgada no ano passado, quando pesquisadores do Instituto de Pesquisas Messerli, vinculado à Universidade de Viena, na Áustria, provaram que os porcos são mais inteligentes do que pensamos – o que pode ser confirmado conferindo o estudo “Pigs (Sus scrofa domesticus) categorize pictures of human heads”.
A pesquisa revela que os porcos podem se lembrar de estímulos visuais e responder adequadamente. No teste que compreendeu 80 tarefas, os porcos provaram ter grande capacidade de aprendizado, de uso de recursos bidimensionais na tomada de decisões e de desenvolvimento de novas habilidades de reconhecimento visual.
Já o total de bovinos mortos para consumo no terceiro trimestre chegou a 8,35 milhões, somando 2,16 milhões de toneladas em carcaças. Os bovinos estão sendo enviados cada vez mais jovens para os matadouros no Brasil, segundo o IBGE. Isso tem relação com a demanda voltada à exportação de carne principalmente para países asiáticos como a China que não se interessam pela carne de animais com mais de 30 meses de idade.
Alguns países pagam R$ 4 a mais pela arroba de bovinos mais jovens, o que significa que a expectativa de vida dos animais é pautada pelo mercado. Se há procura, os pecuaristas pesam o custo/benefício de abatê-los cada vez mais jovens.
Em geral, a preferência é por novilhos e novilhas, mas vacas também estão sendo abatidas mais cedo, conforme dados do IBGE que apontam crescimento de 3,2% em relação a 2018.
No Mato Grosso do Sul, desde 2017 o Programa de Apoio à Criação de Gado para o Abate Precoce (Novilho Precoce) estimula pecuaristas a criarem e desenvolverem bovinos que possam ser abatidos mais cedo.
De acordo com dados da Animal Pharm, a indústria farmacêutica lucra cinco bilhões de dólares por ano com a produção de antibióticos para animais criados para consumo – como bovinos, suínos, aves, etc.
Os antibióticos são muito utilizados na produção de carne bovina, suína e de frango, e o uso contínuo desses medicamentos na criação de animais pode fazer com que as bactérias se tornem resistentes, assim tornando os antibióticos de uso animal e humano menos eficazes no tratamento de doenças.
“Essa é uma indústria muito sofisticada, com uma longa história de lobby. O problema é que grande parte dos dados usados pelos reguladores é gerada por cientistas ligados às empresas farmacêuticas”, enfatiza o editor da Animal Pharm, Joseph Harvey, acrescentando que o uso excessivo de antibióticos tem despertado particular preocupação na América Latina, Ásia e África Austral.
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