O episódio dos torcedores corintianos que levaram e jogaram uma cabeça de porco no campo da Neo Química Arena, visando provocar jogadores do Palmeiras e palmeirenses, é um reflexo da nossa relação com outros animais.
Em páginas de grandes jornais, as reações de indignação em relação ao animal desaparecem em meio a uma interpretação cômica, ou de um incômodo que não é sobre o animal, mas sobre sua cabeça estar no campo; sendo considerado um desrespeito com o time e com a torcida, além de uma reprovável transgressão.
Mas e se o time adversário fosse associado a um cachorro e jogassem a cabeça de um cachorro no campo a reação seria a mesma? Sabemos que não. A maioria pensaria imediatamente no animal, e de uma forma que é um pesar pelo animal, mesmo que fosse uma cabeça encontrada já separada do corpo em algum lugar.
Claro que alguém diria que existe uma grande diferença – não comemos cães. Mas também poderíamos não comer porcos, já que não há nada que nos impeça de não comê-los. O riso e a inconsideração pelo porco têm relação com o lugar imposto a ele como alvo de exploração e morte, como fim na alimentação, como produto.
Seria impossível esse tipo de reação se o porco não fosse um animal tão comumente morto para consumo. Logo a banalização vem dos hábitos de consumo, da normalização de inferiorizar o animal ao ponto de que tudo sobre ele não seja observado de forma empática. Não se pondera sobre o impacto para esse animal.
Se muitas pessoas riem da cabeça de porco no campo é porque elas não veem o porco como um animal a quem se deve algum tipo de consideração. Digo que essas pessoas não veem o porco como é, mas o porco no que foi ou deve ser reduzido – algo, não alguém, percebido como “para a faca”.
Muitas vezes dizemos que vemos um animal, mas, dependendo da percepção que temos dele, isso é antagônico ao próprio animal como um ser, porque não é realmente vê-lo, e sim ver o que é determinado sobre ele, se isso se resume ao fim no interesse humano.
Se a maioria não comesse nada proveniente de porco, e por levar em conta que o porco também tem interesse em não sofrer e morrer, e que isso deve ser respeitado, a reação de indignação, sabemos, seria uma expressão de não aceitação como reflexo do valor atribuído à vida do porco e que estaria em consonância com o próprio interesse do porco em relação à sua vida.
Quem levaria a cabeça de um porco para o estádio se o porco fosse um animal tratado com respeito? Porcos são mortos o tempo todo, e matá-los serve também como reafirmação da banalização de suas vidas – resultando até mesmo em atos que podem ser reprovados por quem também participa da banalização de suas mortes por meio do consumo.
E não é ao banalizá-las que surgem situações em que o porco é marginalizado até mesmo quando o episódio é sobre a exposição de sua cabeça morta? Pensemos mais uma vez no riso, no deboche e no incômodo que infelizmente não é sobre o animal.
Leia também “Quando a criança ouviu o guincho sofrido do porco“, “Cerdas de pelo de porco são usadas em escovas de dente” e “Uma lição para não matar porcos“.
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