Por que a carne cultivada não libertará os animais

A promessa de um atalho tecnológico esbarra na necessidade primordial de uma guerra cultural

Por que a carne cultivada não libertará os animais

Quando a carne cultivada é criticada por “manter o especismo intacto”, como já fez o professor Gary Francione, é comum a acusação de que isso é um purismo desconectado da realidade. Mas quem critica essa posição ignora que mudança material sem transformação cultural também não gera apelo massivo.

Ao analisarmos a questão pela ótica gramsciana da hegemonia cultural, o argumento de Francione ganha uma profundidade estratégica que transcende o debate polarizado. A carne cultivada esbarra no mesmo problema cultural de outros produtos sobre os quais se deposita um “messianismo” baseado na busca pela mimetização – a crença de que a mera oferta de produtos transformará a realidade.

O diagnóstico estratégico: a guerra de posição

A partir da promessa de que a carne cultivada oferecerá um produto que é a própria carne animal, baseada em células animais, mas livre do abate, acredita-se que é possível colocar um fim ao abate de animais no futuro. Isso, além de não desafiar o senso comum que legitima o consumo de animais (o signo do animal como alimento), portanto se abdica da guerra de posição dentro da hegemonia cultural para criar um novo senso comum, esbarra em outro problema subestimado.

Hoje, se fala mais do que nunca no direito e na busca por uma alimentação mais natural. A carne cultivada se posiciona como antítese direta desses valores crescentes mais atuais: é essencialmente um produto de laboratório, sintético em sua concepção, artificial em sua execução. Mesmo utilizando células animais como base, sua produção requer complexa intervenção tecnológica, meios de cultura ainda frequentemente derivados de soro fetal bovino (custa menos do que buscar alternativas) e um controle ambiental totalmente artificial.

Uma pessoa para quem comer carne é uma expressão do habitus (Bourdieu) e de toda uma extensão de significações culturais não se identificará com esse tipo de produto – porque requer um rompimento com essas significações. Acreditar que sem motivação cultural alguém apenas optará por esse produto porque ele estará disponível não soa lógico e ignora as mediações culturais (Martín-Barbero) que justificam uma mudança de hábito.

Além disso, suas próprias complexidades produtivas já estão resultando em queda de investimentos e fechamentos de empresas, além de barreiras regulatórias, desafios tecnológicos para escalabilidade e o alto custo de produção. Entre as empresas do setor que encerraram atividades estão a Meatable, SciFi Foods e Believer Meats, que eram grandes promessas do setor a partir dos Países Baixos, Estados Unidos e Israel. E a cada ano, a lista aumenta.

O caso da Believer Meats é especialmente citável porque ela foi muitas vezes referenciada como a empresa de carne cultivada mais próxima da escala comercial e, ainda assim, encerrou suas operações em dezembro de 2025. Esse fato é crucial porque ela havia acabado de conquistar algo raríssimo: todas as aprovações regulatórias necessárias (FDA e USDA) para produzir e vender seu frango cultivado a partir de sua nova fábrica de grande escala nos EUA.

A armadilha da mimetização: perpetuar o signo, adiar a guerra cultural

Hoje se afirma que os fatores de crescimento que nutrem as células podem representar até 90% dos custos de produção da carne cultivada. Nesse contexto, o uso do soro fetal bovino extraído de vacas abatidas ainda é mais usual porque custa menos do que suas alternativas. Portanto, há uma relação de dependência com o sistema convencional de produção de leite e de carne e que expõe sua própria contradição, já que não deixa de se basear no abate. E se uma empresa implementa uma alternativa (serum-free), ela opera dentro de uma lógica que a torna mais distante de sua realização comercial, já que os custos aumentam, não diminuem. Enfim, essa origem híbrida cria uma fragilidade econômica e uma ambiguidade ética.

E ainda que os custos gerais possam ser reduzidos, a escalabilidade continua sendo um obstáculo com prazos somente especulativos. Mesmo quando se divulga que em 2030 haverá escalabilidade, isso é menos uma previsão científica e mais um ato de fé no progresso tecnológico e no mercado – ou uma forma de acalmar investidores. É a expressão da crença de que o capital e a engenhosidade humana resolverão todos os problemas complexos em um prazo de negócios.

Essa fé, porém, esbarra na realidade. Sua adoção em massa depende de uma mudança cultural prévia que a legitime e demande. Mesmo que os desafios técnicos fossem magicamente resolvidos amanhã, o produto ainda enfrentaria o muro do habitus, da falta de um senso comum transformado e do preço relativo (muito mais problemático do que no setor plant-based). Enfim, como escalar um produto depositando toda a confiança no próprio produto em vez da mudança cultural que o precede e da qual ele depende para ser bem aceito?

Um produto pode ganhar escalabilidade e ainda assim não ter apelo massivo. Basta lembrarmos do que tem ocorrido hoje com as maiores marcas de carnes vegetais, como Beyond Meat e Impossible Foods, dos EUA, que estão em crise e no cenário considerado mais promissor para esses produtos – . Ao depositar a confiança da mudança no próprio produto, seja carne cultivada, vegetal (plant-based) ou fermentação de precisão, se ignora completamente a capacidade de agência do consumidor e os valores em associação com esse produto e que serão realmente os determinantes para consumi-lo ou não; e não a mera oferta e o marketing em torno dela.

Ainda hoje se fala somente em replicar sabor, textura e experiência de consumo, mas e o significado cultural que será expresso na relação com o produto? Isso não pode ser criado por nenhuma empresa, porque o significado cultural a antecede. Ele reflete exatamente aquilo que é importante para as pessoas numa conciliação de valores. Isso é sobre entender que o consumidor não é passivo (Canclini) e que não há mudança que não passe pela consideração prévia de habitus (Bourdieu); e que nada disso será possível sem mediações culturais (Martín-Barbero). Só dessa forma se pode realmente impactar na hegemonia cultural (Gramsci) para criar um novo senso comum que entre em conflito com o uso de animais nas nossas relações de consumo.

Sem esse tipo de mudança, qualquer produto será um produto estranho para a maioria – sendo comemorado somente por uma minoria. Sem uma mudança cultural prévia e profunda que envolva uma parcela realmente expressiva da população, qualquer inovação alimentar que desafie o paradigma do uso animal está condenada a ser um produto estranho, marginal ou de nicho.

É um erro subestimar a massificação da mudança cultural 

A mudança cultural não é um subproduto da inovação de mercado; é sua pré-condição. Não existe massificação de produtos que se sustente sem uma massificação de mudança cultural. A hegemonia do especismo – a visão de que animais são recursos – é mantida por um consenso ativo (Gramsci) enraizado no habitus (Bourdieu). Desafiá-la exige uma “guerra de posição” prolongada nas ideias, na educação e nos valores. Exige um trabalho que precede e torna possível a aceitação de qualquer novo produto que se pretende “massificador”.

A lição é que não existe atalho tecnológico ou de mercado para uma revolução ética. A transformação da relação humana com outros animais é um processo cultural de longo prazo. Os produtos são consequências desse novo consenso. Enquanto a hegemonia cultural que normaliza o uso de animais para consumo permanecer intacta, as alternativas mais bem-intencionadas continuarão a ser produtos estranhos para a maioria.

Em resumo, o projeto de acabar com o uso de animais não será concluído no laboratório de biotecnologia ou na fábrica de processamento de alimentos. Ele será concluído, ou não, na esfera pública, na educação, no trabalho de construir um novo consenso cultural. O mercado pode apenas fornecer ferramentas para uma mudança que o precede. E porque ele é incapaz de, por si só, criar esse mundo.

Portanto, os obstáculos da carne cultivada não são apenas problemas de escalabilidade técnica ou de marketing, mas de filosofia da mudança social. Eles confirmam que a cultura precede o produto, já que um novo produto só é adotado massivamente quando ressoa com valores e significados já em gestação ou transformação na sociedade. Ele é a materialização de uma mudança cultural, não sua causa.

Ignorar que o consumidor reinterpreta ativamente os produtos à luz de seu habitus e valores é cometer um erro estratégico fatal. A mudança não pode ser “vendida”; deve ser internalizada. A batalha real é pela hegemonia. Empresas podem sobreviver e até prosperar servindo a um nicho em crescimento, mas a realidade dos animais só mudará radicalmente quando uma nova consciência, uma nova hegemonia cultural, preceder e demandar essa mudança.

Essa consciência não é criada em biorreatores ou fábricas de processamento; é criada, vale reforçar, na esfera pública, no debate de ideias, na educação, na arte, no ativismo constante – na longa e paciente guerra de posição que muda o senso comum. O mercado, nesse processo, é um termômetro (que mede a aceitação atual) e, no máximo, um catalisador secundário (que oferece opções quando a mudança já está em curso).

Os fracassos da carne cultivada como reflexo da mera aposta mercadológica 

Apenas entre setembro de 2024 e agosto de 2025, um levantamento do portal Green Queen revelou que mais de 40 empresas do setor de “proteínas alternativas” fecharam as portas, passaram por fusões (por não conseguirem se sustentar por si mesmas) ou foram à falência. Essas fusões são uma resposta direta ao fato de que o investimento em capital de risco para carne cultivada despencou drasticamente, tornando impossível para cada startup sobreviver sozinha. A “união” é uma tentativa de impressionar os investidores restantes com uma empresa maior.

Encontramos também exemplos de quedas de investimentos globais de 78% em carne cultivada no período de um ano, segundo o portal AgFunder, especializado em relatórios de investimento em agrifoodtech. E empresas bem financiadas como Upside Foods (EUA) e Aleph Farms (Israel) tiveram que demitir funcionários e rever planos de expansão.

Hoje, tudo indica que, na melhor das hipóteses, a carne cultivada, mesmo quando houver escalabilidade, também será um produto caro, ou seja, que não começará sem operar dentro de um nicho – portanto incapaz de competir com a carne convencional e, mais importante, ter ressonância cultural. Isso entra em conflito também com a própria dimensão cultural de aceitação de que ela depende previamente para atingir um público mais amplo.

Logo, o que podemos problematizar é que esse produto só pode ter preço competitivo ao se tornar massivo. Mas como se tornar massivo e ser bem-sucedido nessa oferta se não tiver antes um apelo cultural que esteja em consonância com os próprios valores culturais dos consumidores? Não há como tornar esse produto acessível e não há grande escalabilidade sem uma mudança cultural que envolva previamente muitos consumidores.

Ou seja, ele dependeria de muitos consumidores não apenas validando esse consumo como participando dele. Mas muitos só podem aceitar esse consumo a partir de uma mudança cultural; algo que nenhum produto por si só pode oferecer, já que isso depende do que ocorre fora dessa oferta, no campo que precede o mercado – o campo da cultura.

A solução para o paradoxo não está no laboratório de biotecnologia 

Para ser barata e acessível (competitiva com a carne convencional), a carne cultivada precisa de economias de escala massivas. Isso requer enormes investimentos em fábricas (biorreatores), cadeia de suprimentos de meios de cultura e uma produção contínua e em alto volume. Para alcançar essa escala de produção, é necessária uma demanda massiva e estável. Mas a demanda depende de aceitação cultural. Logo, o produto precisa se encaixar no sistema de valores, no habitus, e ser percebido como seguro, desejável e “normal”. Também depende da superação da estranheza: vencer a barreira do “natural vs. Artificial”, do “comida vs. experimento científico”.

Antes que o produto possa ser massificado no mercado, seu sentido precisa ser disputado e ressignificado na sociedade. Há também um nó górdio ético e simbólico que a carne cultivada não consegue desatar. Ela não se encaixa claramente em nenhum dos habitus alimentares estabelecidos e carrega uma contradição em seu “DNA” que a torna rejeitável tanto pelo mainstream quanto pelas comunidades que mais naturalmente poderiam apoiá-la.

A carne cultivada ainda perpetua a visão dos animais como fonte de matéria-prima, mesmo que sem abate direto no produto final. O uso inicial de células (que requer biópsia de um animal vivo, referenciado discutivelmente sob o rótulo de “doador”) e a possível dependência de soro fetal bovino reforçam a ideia de que animais são estoques biológicos para nosso uso. A carne cultivada é o corpo animal (em nível celular) e que não pode ser desconectado de sua histórica condição de manipulação genética. Portanto, ela fica em um vácuo de identidade. Pode não ser considerada suficientemente ética nem suficientemente carne.

E ironicamente, ao não negar a condição cárnea do animal como de uso, se busca disputar um campo com grande desvantagem. Se os consumidores já têm acesso à carne de animais por meios convencionais, por que elas vão querer algo que diz ser a própria carne a partir do que é desenvolvido em laboratório? Ao se negar a disputar o campo da hegemonia cultural que legitima esse tipo de consumo, se busca disputar exatamente o campo de maior conflito e antagonismo – o da legitimidade do uso de animais. Portanto, por mais que possamos acreditar que é possível mudar a realidade sem uma ruptura com o especismo, é exatamente por se negar a não reconhecer a importância dessa ruptura que a volatidade é maior, assim como as incertezas em relação a esse mercado.

A carne cultivada tenta competir exatamente no atributo central (ser carne) que a indústria pecuária domina, sem conseguir oferecer uma vantagem cultural ou sensorial decisiva. Sua única vantagem discursiva – “sem abate” – é abstrata para a maioria dos consumidores, cujo habitus não problematiza o abate como algo errado, mas sim como um dado naturalizado da produção de comida. Além disso, sem a materialização da escalabilidade, seus supostos menores impactos ambientais como potenciais motivadores para colocá-la como um diferencial, são meramente especulativos. Ainda assim, não deixam de soar também como abstratos para a maioria.

A carne cultivada só faria sentido em sua adesão altamente massiva se ocorresse algo como no filme “Foe“, de Garth Davis, inspirado no livro de Iain Reid. Nele, a humanidade vive em uma distopia onde já não é possível criar animais para consumo no campo porque não há mais condições ambientais para isso. É um cenário de crise ecológica que força a aceitação da artificialização radical da alimentação, mas que, significativamente, no filme, não leva ao fim do abate e sim a sua perpetuação sob novas formas tecnológicas. Devemos lembrar que, mesmo com todos os problemas atuais em relação com a pecuária, nada impede hoje a criação de dezenas de bilhões de animais para consumo por ano.

Queda de investimentos e fechamento de empresas não são apenas problemas financeiros ou técnicos 

Outro ponto é que a esperança em torno da carne cultivada, assim como problematizei no artigo “Por que as maiores marcas de carnes vegetais estão em declínio?” fica refém de relatórios trimestrais, flutuações no mercado de capitais e decisões executivas em salas de reunião fechadas. É uma base fragilíssima para algo que se propõe a acabar com uma das maiores indústrias de exploração do planeta – e que reproduz o mesmo problema de um capitalismo mais visceral do que das transnacionais, conforme coloco também no artigo já citado.

A queda de investimentos e o fechamento de empresas não são apenas problemas financeiros ou técnicos. São, na verdade, o sintoma da falta de uma base social e cultural sólida que sustente a carne cultivada. O que ela tem hoje é, na verdade, um limbo cultural; onde pode ser até mesmo criticada por dois lados opostos – consumidores de carne para quem isso não é realmente carne (fator cultural) e veganos que sustentam que a carne cultivada não supera o especismo (fator antagonista – ainda se come carne), criando um cenário de volatilidade e fragilidade que se conecta também a uma “não identidade”.

Ao tentar ser “pragmática” e evitar a difícil batalha cultural contra o especismo, a aposta na carne cultivada como “massificação estratégica” pode estar gerando um caminho ainda mais incerto e volátil em comparação com o setor plant-based. Afinal, o que se aposta é em uma forma ainda mais visceral de vencer “no campo do inimigo” jogando pelas regras do inimigo (a lógica do consumo de carne como desejo natural), e apostando tudo na tecnologia. Isso ignora que a hegemonia não se quebra com uma alternativa de produto, mas com a erosão dos significados em relação com práticas de consumo.

Portanto, a instabilidade do mercado de carne cultivada não é um acidente e sim a consequência direta de uma estratégia que substituiu a transformação do senso comum pela mimetização do produto, acreditando que a materialidade da oferta precederia e criaria a mudança cultural. A história, e a teoria gramsciana, sugerem que é quase sempre o contrário: sem uma nova hegemonia em gestação, os produtos que a antecipam de forma ambígua tendem a naufragar na indiferença ou na rejeição do velho habitus.

A aposta na carne cultivada como “a solução definitiva” parte de uma premissa perigosa: a de que a mudança material (oferta do produto) gera, por si só, transformação cultural. Isso ignora a lição gramsciana de que a hegemonia (o domínio cultural que torna o consumo de animais “natural” e “óbvio”) precisa ser desmantelada por uma “guerra de posição”. Enfim, por um longo trabalho de disputa de ideias, valores e sentidos comuns.

A carne cultivada, por se situar em um terreno nebuloso, pode se tornar mais um produto a ser consumido somente por quem tem maior poder aquisitivo. Assim, seu impacto sobre o sofrimento animal seria marginal, já que não substituiria a produção convencional em escala significativa, mas apenas criaria um novo nicho de mercado atuando paralelamente à indústria animal.

Um “boom” inicial construído sobre narrativas messiânicas

O “boom” inicial da carne cultivada foi construído sobre narrativas messiânicas típicas do capitalismo tecnológico: a solução milagrosa, a disrupção total, o fim dos problemas éticos e ambientais sem necessidade de mudança comportamental. Essa narrativa ignorou deliberadamente as complexidades culturais, econômicas e simbólicas envolvidas – algo que sequer é somente uma prerrogativa desse mercado, mas de todos aqueles que hoje sustentam uma superação do hábito de consumo de produtos de origem animal a partir de uma mera “substituição de produtos”.

Não por acaso, com base em dados e nas problematizações trazidas, o hype da carne cultivada já apresenta sinais claros de declínio: investidores começam a se retirar, empresas enfrentam dificuldades regulatórias, prazos para comercialização em massa são continuamente adiados e os valores investidos têm caído. O padrão segue o ciclo típico de desilusão das tecnologias superestimadas: pico de expectativas infladas seguido pelo “vale da desilusão”.

A defesa dos animais requer mais do que soluções técnicas que mantêm intactas as premissas especistas. Requer uma luta cultural pela transformação do senso comum que naturaliza o uso de animais. A carne cultivada, no entanto, opera em uma lógica que ignora essa batalha. Ela se posiciona contra os valores de naturalidade e tradição que ainda sustentam o consumo animal – valores que, apesar de seus paradoxos lógicos, são psicologicamente reais e culturalmente dominantes.

Afinal, do ponto de vista factual, a carne convencional está longe de ser “natural”. Mas do ponto de vista do habitus hegemônico, ela é a própria definição de “comida de verdade” – integrada a rituais, experiências, sabores e um imaginário social poderoso. Disputar essa percepção apenas com a lógica fria de um novo produto (seja ele cultivado ou plant-based) é um erro tático fatal. É disputar no campo do atributo (sabor, preço, textura), ignorando completamente o campo do símbolo e do significado, que é onde a batalha pela hegemonia cultural, de fato, se decide.

Não por acaso, toda promessa que surge com discursos de disrupção e grande massificação tem esbarrado nisso, como trago também no artigo “Por que as maiores marcas de carnes vegetais estão em declínio?” Curiosamente, qualquer pesquisa que fazemos revelará que o pico de investimentos em carnes cultivadas se situou entre os anos de 2020 e 2021; o que expõe também a lógica de “hype”, já que o setor não conseguiu mais chegar perto de repetir o que houve naqueles anos.

Portanto, os dados que mostram a carne cultivada encolhendo para um nicho não são um fracasso técnico, mas sim um fracasso cultural. Eles comprovam que, sem vencer a batalha pelas ideias e pelos significados, nenhuma inovação de mercado, por mais bem-intencionada que pareça, será capaz de realizar a transformação profunda que os animais necessitam. Logo, a carne cultivada não apenas é uma solução de mercado hoje em declínio, mas também um exemplo de como estratégias que ignoram o cerne cultural do especismo estão fadadas a não conseguir a transformação ética que os animais merecem.

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Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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