Categorias: Pequenas Narrativas

Carne não é só carne

Pintura: Albert Guasch

Não tem certeza de quando começou a comer carne. O motivo? Também não lembra. Chegava à boca de diversas maneiras, formatos e influências, assim como tudo que vinha de bicho. É gostoso, come! Você vai gostar! Que lindo! Papou tudinho! Come mais! Vai, só mais um pouquinho!

Aprendeu a gostar de carne porque disseram que sim, sim, sim. Uma indução pela repetição moldou o paladar, vontades, desejos, crenças e sensações. E o que havia por trás? Nada mais? Houve resistência, breve, que voltou breve, mas não lembra. Vinha de bicho? Quem disse? Carne era apenas carne, como se tivesse nascido carne, brotado de alguma forma e crescido para ser o que é.

Olhe, é assim, apenas assim. Por que imaginaria um corpo, pelos, couro, penas, vida, sons, movimentos, capacidades, olhares e alheias vontades? Aquele pedaço cru que virava doutra cor depois de pronto e ganhava novo cheiro era uma transformação que instigava um pouquinho de atenção, sim. Mais do que isso? Não, não, não…Por que seria diferente se o que tanto ajudava era o ambiente?

A ordem que era comer virou hábito que passou a ser celebrado e intensificado. Por que pensaria em animais? Que animais? Era como se não existissem, e quando percebia que existiam, por que associá-los ao prato? Vê-los no prato? Não…só carne mesmo.

Carne não sente dor, não tem vida. É isso. Só isso. E um animal do lado? Por que haveria conexão? Não é a mesma carne? Ele estava ali, vivo, então não poderia estar no prato de ninguém, menos ainda no meu. E dissimular também é afagar uma consciência que não queremos incomodar.

É preferível que carne seja somente carne – sem associação com pernas ou qualquer coisa em movimento. Apenas um pedaço que compramos, feito de vontade humana e move-se com as mãos que são instrumentos do paladar.

Um dia, algo mudou. Sentiu frustração e irritação. Por que é assim? Carne já não era só carne. Que demora! Só gritou dentro de si – e durou. Sentiu o corpo aquecer e pensou na própria carne viva. Quanta carne comi! Muitos não estão aqui. Onde caberiam?

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David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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