Do lado de lá, margeando a principal rodovia, uma família fazia piquenique, ou não só uma família. Havia toalha de mesa bem estendida, na cor que quiser imaginar, e fartura, mas nada de origem animal sobre o tecido.
Não, nada mesmo. Junto ao grupo humano, animais que a maioria gosta de comer descansavam, e alguns moviam a cabeça para receber afago ou aperitivo.
Na rodovia, motoristas desaceleravam e observavam com curiosidade e estranhamento. Alguns sorriam, quando percebidos. Quem sabe, na ausência de expressão que melhor pudesse definir a sensação. Outros riam e apontavam.
“Ó, estão deixando a comida de lado para mais tarde.” E continuavam, entre intervalos acompanhados de mudança de voz e tom. Os mais irritadiços berravam. Não queriam passar despercebidos:
“Que desperdício de carne.” “Comer essas coisas aí com esses animais deliciosos do lado? Isso é burrice!” “Onde esse mundo vai parar? Pessoas comendo cercadas de animais feitos para nossa nutrição.” “Melhor seria uma churrascada com essa bicharada.”
O incômodo dos outros, ouvido ou não, também era bem recebido. A família não reagia ou, quando sim, acenava sem exasperação, como se ofensas pudessem ser lisonjas.
Não era lisonjeiro, e sabiam bem disso, mas por que ignorar que externar incômodo pode ser brado de insegurança sobre as próprias inconsistências? O grito para o outro então é grito para dentro de si, no seu desajustamento premente.
Afinal, estariam lutando contra quem naquele momento a não ser com eles mesmos e seus conflitos de insofrimento e incomplacência? Medo de mudança, da extensão desta e do respeito?
Alguns paravam para admirar os animais e ver de perto o congraçamento. Recebiam, através da janela, suco e frutas colhidas na própria propriedade, bem dispostas sobre a toalha e em grandes cestas, além de porções de bolo e torta que faziam questão de dizer como foram preparados sem uso de animais.
Outros, que vinham logo atrás, torciam o nariz e buzinavam, embora a rodovia, larga como é, daria para estender carretas. Antes do fim da tarde, não sobrou nada para comer, mas se esperança fosse comestível o maior fruto seria.
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