Categorias: Pequenas Narrativas

Como a pesca pode ser considerada divertida?

Foto: Selene Magnolia

Quando viu o peixe debatendo-se fora d’água, fazendo esforço para livrar-se da situação, sentiu desgosto.

Questionou-se como a pesca pode ser considerada divertida se a diversão de quem pega o peixe é a dor e o fim de quem é capturado. À sua volta, o único estranhamento era seu, e sentiu-se como se estivesse fora de lugar.

“É estranho sentir o que ninguém sente. É estar aqui e não estar ao mesmo tempo. Um corpo presente num estado ausente. Ou um estado ausente num corpo presente?”

Pediu que devolvessem o peixe à água. Acharam engraçado. “Por quê?” “Mas é pequeno, olhe o tamanho…” E venceu não pelo reconhecimento da dor do peixe, mas de sua pequenez, seu estado diminuto, vasqueiro. Então seria vitória?

Foi lançado à água e mergulhou, deixando uma mancha fina de sangue alcançável aos olhos, que desapareceu. “E o corpo violado, quando não obliterado, o que preserva na sequência da experiência?”

Aproximou-se da margem e pensou no sangue que mistura-se à água ou afasta-se dela pelo corpo distanciado, desconectado.

“E o que escorre fora vem da ausência da água já intocável pela intervenção de algo que fura e rouba-lhe o corpo, o controle de sua presença guiada por sua vontade.”

Esforçou-se para imaginar como seria se animais aquáticos subissem à superfície, levando-a às profundezas.

“Então morreria afogada, e haveria equivalência com o sufocamento de um peixe na superfície? Por que comparar? Devo medir sua dor a partir da ideia do que poderia ser a minha? Por quê? Não basta ser sofrimento?”

Logo viu outro peixe, maior, debatendo-se a poucos metros. “Não vão deixar viver.” Olhou para a água, reconheceu os limites da própria visão e concluiu que aquele imenso espaço aquático é algo para quem vive nele e outro algo para quem se apropria do que é parte dele.

“Quem tem razão? A mobilidade humana pode ser bem violenta. E quando não reconhecida? É como redimensionar-se pelo infinito.”

Um barco encostou trazendo sorrisos, homens de coletes e mais peixes. Ouviu a sequencialidade do que não é humano. “É um constante esvaziamento de vidas…lá e aqui.”

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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