Categorias: Opinião

Como a violação sexual de animais pode ser normalizada?

Foto: Jan Van Ijken

Como a violação sexual de animais pode ser institucionalizada e normalizada? Quando fala-se em “reprodução animal” dentro de um sistema controlado como a atividade pecuária, que tem fim econômico, um animal é sempre um meio para alcançar um objetivo que signifique vantagens humanas às custas de prejuízos não humanos.

Não é difícil reconhecer arbitrariedade no caso de um animal submetido à violência sexual, ao domínio de sua intimidade, e que a própria legislação e a percepção média proveniente da naturalização favorecem o não estranhamento, que é resultado de prática de longa data, e não apenas legitimada como cada vez mais ampliada.

Há uma ideia predominante de que animais que são gerados para nossos interesses exploratórios devem ser submetidos a todos eles. Então dizemos que muitas práticas podem ser permitidas e poucas não – e o “não” pode ser mais para surtir efeito em nossa consciência do que na vida não humana.

Afinal, se permitimos tantas ações nocivas, que reafirmam a base desse sistema, as que reprovamos não são realmente transformadoras em relação às suas realidades.

Imagens de fêmeas não humanas impossibilitadas de fugirem a uma situação de violência sexual por interesse econômico, e que costumam ser chamadas de “matrizes” em alguns contextos, são um exemplo de que o “estupro” é comumente indução humana a partir da subjugação de quem não é humano.

Talvez alguém choque-se ou ache exagerado o uso do termo “estupro”, mas se uma fêmea é violada sexualmente, e essa ação ocorre por imposição humana, do que você chamaria? Não posso atribuir ao macho não humano que participa da ação uma percepção de estupro, porque ele não racionaliza esse conceito – e no contexto de reprodução, que tem viés mecânico e artificialista, é preparado e condicionado por humanos com intenções financeiras.

Impossível também é ignorar que a fêmea resiste à ação dentro de suas possibilidades, que não garantem a prevalência de sua vontade. Seu descontentamento é notável, e mesmo que não fosse não anularia o impacto arbitrário da ação. Não podemos esquecer que esses animais também podem desenvolver traumas em consequência de violação física.

David Arioch

Jornalista e especialista em jornalismo cultural, histórico e literário (MTB: 10612/PR)

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