Muitas pessoas consomem ingredientes de origem animal sem saber

Ilustração: Tommy Kane

Muitas pessoas acreditam que têm plena consciência do que consomem, mas quando fazem essa afirmação geralmente isso reflete uma realidade parcial. Elas nominam o que consomem, mas normalmente desconhecem a composição do que consomem. Portanto, por não saber, podem estar consumindo o que não gostariam de consumir.

Veganos geralmente tendem a ser mais atentos a essa questão porque têm uma comum preocupação em não consumir nada de origem animal ou que envolva uso de animais, mas há pessoas que, mesmo motivadas por razões éticas podem não saber o quanto ingredientes animais são recorrentes na indústria alimentícia.

E isso envolve uma diversidade que supera de longe os alimentos mais percebidos como de origem animal. Pessoas que evitam carne por razões éticas, de saúde ou preferência, podem estar consumindo subprodutos animais (inclusive derivados da carne) sem perceber, porque não esperam encontrá-los em um produto que tradicionalmente era vegetal.

Termos técnicos ou desconhecidos também podem dificultar a compreensão. Como ainda não há uma lei no Brasil (embora exista um projeto de lei – PL 3479/2004) que exige a discriminação de ingredientes e uso de substâncias de origem animal em produtos, hoje podemos contar no máximo com a discriminação de alergênicos nos rótulos, como os que são provenientes do leite.

Ainda assim, pode ser que pessoas que evitam o leite não por razões alergênicas, caso não costumem ler rótulos, acabem não dando atenção para isso em relação a produtos que não imaginam que contenham derivados do leite. Dois ingredientes que costumam ser muito usados em aplicações furtivas na indústria alimentícia são o soro do leite e a caseína.

E, não se enquadrando hoje na legislação que envolve alergênicos, inúmeros ingredientes de origem animal podem passar batidos. Geralmente eles só receberão algum destaque no rótulo se for relevante para vender um produto. Ou seja, se fizer parte da identidade que envolve o próprio produto.

Essa é uma realidade que deve também nos levar a refletir sobre como ingredientes de origem animal estão em tantos produtos, de alimentícios a não alimentícios. Isso mostra também até que ponto chegou a instrumentalização animal amparada na defesa de que se um animal é usado ou morto para uma finalidade, que seja destinado também a outros fins.

Ademais, estabelece simbolicamente uma ideia de dependência que leva a uma crença de que se animais são usados “para tantas coisas”, “não podemos deixar de usá-los”. Assim, em torno dessa ideia, constrói-se também uma narrativa que visa intensificar o uso de animais a partir de uma lógica capciosa de que deixar de usá-los “impactaria amplamente no próprio modo humano de viver e consumir”. Algo como: “São usados para tanto, não podemos parar.”

Portanto há um projeto político por trás disso, já que se visa manter a opressão contra os animais a partir também do domínio simbólico de qual deve ser a origem do que se consome.

Podemos pensar nessa questão a partir de três níveis da consciência alimentar:

  1. Consumo nominado (superficial): “Eu não como carne” ou “Eu não bebo leite”. É o nível mais básico, focado no produto final e óbvio.
  2. Consumo de ingredientes (intermediário): A pessoa começa a ler listas de ingredientes e evita itens claros como “carne bovina”, “leite em pó”, “manteiga”.
  3. Consumo de subprodutos e aditivos (avançado):  Envolve conhecer os derivados “furtivos” que não soam como o produto original. É aqui que o problema passa batido por tantos consumidores.

 

A ubiquidade calculada dos subprodutos animais

  • Lógica de rentabilidade máxima: Um animal criado para abate não é vendido apenas como carne. Seu corpo é “desmontado” em uma infinidade de subprodutos que geram lucro em diversas indústrias. Ossos e cartilagens viram gelatina para balas, iogurtes e cápsulas de remédios. Penas e pelos são usados em ração animal ou fertilizantes. Gorduras viram sabões, cosméticos e biocombustíveis.
  • Criação de mercado para “refugo”: Muitos desses ingredientes são usados para dar textura, sabor, cor ou consistência a produtos ultraprocessados. A proteína do soro do leite (whey), um subproduto da produção de queijo, é um exemplo perfeito: antes descartado, hoje é usada não apenas como suplemento em pó e  barras proteicas, mas também em pães, biscoitos e sopas instantâneas, além de um número cada vez maior de produtos alimentícios industrializados.

 

O projeto político e a construção simbólica da dependência

  • Naturalização da exploração: Ao saturar o mercado com ingredientes de origem animal, o sistema cria uma sensação de normalidade e inevitabilidade. A mensagem subliminar é: “Os animais são tão fundamentais para nossa existência que estão em tudo. Questionar seu uso é questionar a civilização como a conhecemos.”
  • A narrativa do “antagonismo”: Quem opta por não participar desse sistema (veganos, vegetarianos éticos) é frequentemente retratado como “radical”, “chato”, ou que quer “acabar com o churrasco de domingo”. Essa narrativa é capciosa. Ela inverte a lógica: em vez de o sistema de exploração ser questionado, quem o questiona é colocado na posição de ameaça a um “modo de vida”.
  • Dependência fabricada: A ideia de que “não podemos viver sem eles” é fabricada. É uma dependência econômica e cultural construída, não uma necessidade biológica ou prática incontornável. A existência de muitos veganos saudáveis desmente essa falácia.
  • Manutenção do status quo: O projeto político por trás disso é a manutenção de um sistema de poder e lucro. A indústria pecuária e suas correlatas têm um interesse econômico direto em garantir que o consumo de animais e seus derivados seja visto como essencial, não como uma escolha. Isso envolve lobby contra leis de rotulagem clara, marketing que associa produtos animais a conceitos como “força” e “tradição”, e a influência sobre guias alimentares governamentais.

 

Forçar a visibilidade dos ingredientes de origem animal é:

  1. Empoderar o consumidor: Dar a ele a real capacidade de escolher de acordo com seus valores.
  2. Desnaturalizar a exploração: Tirar esses ingredientes da invisibilidade e colocá-los sob escrutínio.
  3. Questionar a narrativa da dependência: Mostrar que a ubiquidade é uma escolha do sistema, não uma lei da natureza.
  4. Antagonizar o próprio sistema de opressão: Colocar em xeque a lógica que permite que pedaços de animais sejam ingredientes ocultos em produtos aparentemente “inocentes”.

 

Alguns exemplos de “ingredientes furtivos” de origem animal

    • Gordura animal: Usada em diferentes produtos (alimentícios e não alimentícios) e com diferentes nomes.
    • Gelatina (a partir do colágeno, que também é vendido como produto final e usado como ingrediente tanto na indústria alimentícia quanto não alimentícia): Proveniente de ossos e cartilagens de bovinos e suínos. Presente em marshmallows, balas de goma (jujubas), iogurtes, sobremesas cremosas, cápsulas de medicamentos e suplementos.
  • Derivados de Leite (além da lactose, whey e caseína):
    • Soro de leite em pó: Presente em pães, bolos, biscoitos e misturas para panqueca para dar maciez e cor dourada.
    • Caseinato: Um derivado da caseína usado como agente espessante e de textura em cremes, bebidas não lácteas (paradoxalmente) e suplementos proteicos.
  • Derivado de ovos:
    • Albumina: Proteína da clara do ovo, usada como clarificante em vinhos e cervejas, e como agente de estrutura em alguns pães e confeitaria. Também é utilizada em doces industrializados, como o “torrone”.
  • Outros:
    • Cochonilha/carmim (E120): Corante vermelho vibrante extraído de um inseto. Comum em iogurtes de morango, sucos, sobremesas industrializadas, balas e cosméticos (batons).
    • Mel, própolis e cera de abelha: Usados em cereais, barrinhas, balas e como agente de glaceamento em doces.

 

Para uma compreensão mais ampla, recomendo a leitura do artigo “Como a indústria quer aumentar a dependência do consumidor por proteína animal”.

Leia também:

Dizer que o consumo de carne é um vício é um erro

Devemos tratar proteínas vegetais como meras alternativas?

Produtos veganos caros beneficiam o veganismo?

Por que a oferta de produtos veganos não transformará a realidade dos animais

Ser vegano não é suficiente

Vegano e plant-based não são a mesma coisa

Veganismo combina com consumismo?

Resistência à autocrítica no movimento vegano é um problema

Como ver o veganismo como identidade prejudica o veganismo

Como o marketing prejudica o veganismo

Foco em produtos é “um tiro no pé” do movimento vegano

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Faça uma doação à Vegazeta.
Sua contribuição é importante para o nosso trabalho.