Muitas pessoas acreditam que têm plena consciência do que consomem, mas quando fazem essa afirmação geralmente isso reflete uma realidade parcial. Elas nominam o que consomem, mas normalmente desconhecem a composição do que consomem. Portanto, por não saber, podem estar consumindo o que não gostariam de consumir.
Veganos geralmente tendem a ser mais atentos a essa questão porque têm uma comum preocupação em não consumir nada de origem animal ou que envolva uso de animais, mas há pessoas que, mesmo motivadas por razões éticas podem não saber o quanto ingredientes animais são recorrentes na indústria alimentícia.
E isso envolve uma diversidade que supera de longe os alimentos mais percebidos como de origem animal. Pessoas que evitam carne por razões éticas, de saúde ou preferência, podem estar consumindo subprodutos animais (inclusive derivados da carne) sem perceber, porque não esperam encontrá-los em um produto que tradicionalmente era vegetal.
Termos técnicos ou desconhecidos também podem dificultar a compreensão. Como ainda não há uma lei no Brasil (embora exista um projeto de lei – PL 3479/2004) que exige a discriminação de ingredientes e uso de substâncias de origem animal em produtos, hoje podemos contar no máximo com a discriminação de alergênicos nos rótulos, como os que são provenientes do leite.
Ainda assim, pode ser que pessoas que evitam o leite não por razões alergênicas, caso não costumem ler rótulos, acabem não dando atenção para isso em relação a produtos que não imaginam que contenham derivados do leite. Dois ingredientes que costumam ser muito usados em aplicações furtivas na indústria alimentícia são o soro do leite e a caseína.
E, não se enquadrando hoje na legislação que envolve alergênicos, inúmeros ingredientes de origem animal podem passar batidos. Geralmente eles só receberão algum destaque no rótulo se for relevante para vender um produto. Ou seja, se fizer parte da identidade que envolve o próprio produto.
Essa é uma realidade que deve também nos levar a refletir sobre como ingredientes de origem animal estão em tantos produtos, de alimentícios a não alimentícios. Isso mostra também até que ponto chegou a instrumentalização animal amparada na defesa de que se um animal é usado ou morto para uma finalidade, que seja destinado também a outros fins.
Ademais, estabelece simbolicamente uma ideia de dependência que leva a uma crença de que se animais são usados “para tantas coisas”, “não podemos deixar de usá-los”. Assim, em torno dessa ideia, constrói-se também uma narrativa que visa intensificar o uso de animais a partir de uma lógica capciosa de que deixar de usá-los “impactaria amplamente no próprio modo humano de viver e consumir”. Algo como: “São usados para tanto, não podemos parar.”
Portanto há um projeto político por trás disso, já que se visa manter a opressão contra os animais a partir também do domínio simbólico de qual deve ser a origem do que se consome.
Podemos pensar nessa questão a partir de três níveis da consciência alimentar:
A ubiquidade calculada dos subprodutos animais
O projeto político e a construção simbólica da dependência
Forçar a visibilidade dos ingredientes de origem animal é:
Alguns exemplos de “ingredientes furtivos” de origem animal
Para uma compreensão mais ampla, recomendo a leitura do artigo “Como a indústria quer aumentar a dependência do consumidor por proteína animal”.
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