Pode parecer uma boa ideia dizer que o consumo de carne é um vício, acreditando que usar o termo “vício” terá um impacto maior do que não usá-lo. No entanto esse uso é impreciso e também coloca quem consome carne na defensiva.
Dizer que o consumo de carne é um vício é querer patologizar uma prática cultural. Afinal, as pessoas comem carne porque foram ensinadas a consumi-la. Logo, não apenas desenvolveram gosto e prazer em comê-la como aprenderam a vê-la como essencial na alimentação e como parte de uma vida saudável.
Todos esses elementos contribuíram para favorecer um não olhar para o que a normalização desse hábito custou e custa para tantos animais. Mesmo hoje as pessoas ainda recebem o tempo todo “reforços” de que estão fazendo “o que devem fazer” – seja por meio da educação, da propaganda, do mercado, da política, da própria comunidade, da família, de amigos, etc.
Há uma cultura dominante que favorece esse consumo. Tratar o consumo de carne como vício gera uma simplificação equivocada e dificulta a comunicação com quem queremos envolver em uma mudança. Se eu comesse carne e alguém abordasse o meu consumo como um vício, eu não teria uma predisposição em ouvir o que essa pessoa tem a dizer. Não vejo como isso pode ser eficaz.
Há um julgamento inerente a isso que impacta no próprio indivíduo e que o leva a associar essa “condição” a de um “viciado”. Isso dificilmente será interpretado de uma forma a gerar reflexão e não pronta rejeição. A primeira ação defensiva será interpretar isso como uma afirmação sem sentido, já que há uma cultura dominante que sustenta a rejeição a uma ideia de vício.
E nesse ponto, não está errada, se o consumo de carne é essencialmente cultural. “Vício” também é um termo problemático nesse contexto porque tende a restringir o foco no indivíduo enquanto o consumo de carne é um problema estrutural exatamente por sua ampla imersão cultural. Portanto o consumo de carne pensado como “vício”, e como parte de uma conscientização contra esse consumo, não é apenas equivocado como reducionista.
Mesmo pessoas que consomem carne demais – grandes quantidades de carne – estão mais próximas de um transtorno alimentar do que de um vício. Quando um consumidor de carne, por exemplo, normalmente fala em ser “viciado em carne”, ele também não fala valendo-se do mesmo sentido de “vício” dado por quem visa criticar o consumo de carne. Há nisso dois tipos distintos de superlatividade – um como identidade e o outro como tentativa de patologização de uma ampla prática socialmente culturalizada.
O problema também é que há pessoas que acreditam que uma conscientização pode ter mais impacto se soar “mais visceral” (vamos tratar consumidores de carne como “viciados”), o que inclui recorrer também a uma apropriação de sentidos.
Devemos lembrar que parte da rejeição a campanhas e ações que visam conscientizar pessoas sobre o consumo de animais está relacionada também a um uso equivocado de termos que podem mais atrapalhar do que ajudar. É preciso também trabalhar para que outras pessoas não encarem o que é mostrado, ainda que bem-intencionado, como “sensacionalismo”.
Sem dúvida, tratar consumidores de carne como “viciados” acaba sendo parte dessa cultura que tende mais a ter o efeito contrário de uma reflexão. Mesmo que se utilize o exemplo de alguém que possa dizer hoje que se admite como um “ex-viciado em carne”, isso não diz nada, se o consumo de carne não é dominantemente um vício e sim parte de uma tradição alimentar.
Haver pessoas que se afirmem como “ex-viciadas em carne”, e principalmente se hoje são veganas, também pode levantar dúvidas sobre isso ser mais uma “estratégia” do que um “reconhecimento por confissão”. E mesmo que seja um “reconhecimento”, e sendo mais interpretativo do que argumentativo, qual é a proporção de consumidores que se identificarão com isso?
Algumas pessoas realmente se identificarem como “ex-viciadas” não quer dizer que isso será compartilhado por outras, e porque o que motiva a maioria das pessoas a consumir carne não se encaixa na definição ou conceito de vício.
Ademais, não é porque algumas estratégicas provocativas são polêmicas que terão resultados positivos. Isso pode na verdade criar mais uma imagem equivocada de um movimento (apelativo) do que mudar hábitos. Acredito que um ponto de grande importância é se questionar se você, caso fosse um consumidor de carne, reagiria bem a uma conversa em que alguém te induz a concluir que você é um “viciado”.
Veganos, em sua grande maioria, já foram não veganos e consumiram carne – e acho pouco provável que a maioria deles realmente via a si mesmos como “viciados”. Então por que usaríamos hoje esse tipo de argumento falho em relação a quem não é?
Além disso, nos colocamos em posição de igualdade quando abordamos esse consumo com não veganos admitindo que também já estivemos imersos nessa mesma realidade e não víamos problema nessa normalização que depende de prejudicar animais. As pessoas se identificam mais com o que se apresenta como próximo delas.
Observações
O que é abordado no artigo também coincide com os estudos de Bourdieu sobre habitus.
Vício implica em uma associação pejorativa que dificulta uma reflexão sobre o problema estrutural do consumo de carne.
Trocar “vício” por “hábito enraizado” ou “cultura alimentar” remove o estigma e abre diálogo. Reconhecer que fomos socializados nessa norma (inclusive quem hoje é vegano) gera empatia. Questionar por que a sociedade naturaliza o consumo animal gera reflexão crítica. Além disso, destacar alternativas acessíveis mostra soluções práticas.
A mudança cultural exige conscientização. Comparar consumidores a “viciados” é um tiro no pé: aliena justamente quem precisa ser envolvido no debate. A postura mais sólida é expor as contradições do sistema e oferecer alternativas viáveis, sempre lembrando que todos estamos imersos na mesma cultura. Isso gera transformação sustentável, não rejeição automática.
Problemas fundamentais do termo “vício”
Imprecisão terminológica e científica: “Vício” é um termo clínico com critérios específicos (tolerância, abstinência, prejuízo no controle, etc.). O consumo de carne, por mais habitual que seja, não se enquadra nessa definição. Um consumo excessivo se aproxima mais de um transtorno alimentar do que de uma dependência química propriamente dita.
Patologização de uma prática cultural: O consumo de carne é, antes de tudo, um hábito culturalmente aprendido e socialmente reforçado por todas as instituições (família, escola, mídia, Estado). Tratá-lo como um vício individual ignora completamente essa dimensão estrutural e coloca a culpa no indivíduo (“você é um viciado”) por algo que é amplamente incentivado pelo sistema ao seu redor.
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