Um pintinho nasce em uma granja. Não sabe onde está ou como chegou. Identificam o sexo. É machinho, não bota ovo nem tem genética boa pra virar frango. Olhar revela, mas o bichinho não percebe. É apanhado como se nem vida tivesse. Uns vão pela esteira, outros pela giratória. “Amontoa, amontoa, amontoa…” Não é canção de ninar, é de matar.
Ninguém sabe pra onde vai. Uma multidão de criancinhas desconhecidas – os olhinhos escuros, vagando sim, vagando não, vão apertando. As peninhas, pelo articulado da máquina, do medo e da violência, esfregando umas nas outras.
É o carinho do dia. Cheiro vai mudando, um cheiro desconhecido pra quem não viveu. Só apareceu por instante. Alguns vão caindo, desaparecendo e virando coisinha, sem vida e irreconhecível. Chamam de “lixeira amarela” ou “lixeira da criançada”. Os corpinhos vão formando camadas disformes de morte.
Quem vê um caindo tenta voltar. Pouquinha força, nasceu quase agora. Tem medo. Maceração mecânica não vê sofrimento ou sentimento e quem trabalha ali já acostumou. Não vê vida, vê pelúcia das minúsculas. Mas essa sangra e faz barulho sem pilha ou corda. Problema? Tempo se encarrega de fazer parecer groselha. É o engano da continuidade, da banalidade.
“É o que dá nascer na indústria de ovo sem conseguir botar ovo”, alguém diz. Maceração continua e a “lixeira da criançada” enchendo. “É a vontade de comer ovo.” Mais de 233 mil pintinhos por dia, só no Brasil.
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