Pessoas tocam e manipulam partes de animais mortos muitas vezes ao longo do dia, e mesmo quando não estão ingerindo algo de origem animal

Arte: Cao Hui

Em filmes de terror é comum partes humanas utilizadas na confecção de algo serem vistas como algo medonho, aberrante, etc. Na franquia “Evil Dead”, criada por Sam Raimi, por exemplo, em todos os filmes há um destaque visual para o “Necronomicon” ou “Livro dos Mortos”, confeccionado a partir de pele humana, o que faz referência ao “corpo sacrificado” e à sua carne.

É algo que existe para gerar horror, e se foi feito de partes de humanos, só pode ser algo “diabólico”, “nefasto”, “demoníaco”, etc, porque volta-se também para um confronto à ideia da sacralidade da vida humana e do corpo humano.

Por outro lado, se considerada a realidade ordinária, agendas, carteiras, bolsas, malas e outros produtos em que se utiliza a pele de outros animais, quem pensa no animal e no que era o corpo desse animal? Tudo isso desaparece também como parte do senso estético que desvincula-se do “ser animal”.

As pessoas tocam e manipulam partes de animais mortos muitas vezes ao longo do dia, e mesmo quando não estão ingerindo algo de origem animal.

Um produto com couro, por exemplo, não é visto com estranhamento, e também pelo apagamento do animal nesse processo. Isso mostra que temos um lugar de consideração que por conveniência não estendemos a muitos animais.

O horror sobre isso é inexistente à maioria, mas é notório que o senso estético é construído sobre o que não pode ser dissociado de violência e da espoliação do corpo. A esfola do animal no matadouro para arrancar-lhe a pele e transformá-la em couro evidencia isso.

“É um corpo morto”, muitos podem argumentar. Mas lançaríamos olhar equivalente se o mesmo processo envolvesse um corpo humano já morto? Diríamos que já prescinde da própria pele e que devemos fazer o que quisermos com ela?

Essa fácil e comum percepção sobre a instrumentalização de outros animais dá-se pela nossa recusa em considerar que por baixo do couro não humano havia sangue, carne e vida. Foi parte de um indivíduo.

A diferença está no fato de que se alguém fala em “pele humana”, mesmo que seja em um filme de terror, a ideia de “terror” já traz em si uma conotação de reprovação, de brutalidade e violência que ignoramos em relação ao que é normalizado e institucionalizado envolvendo outros animais.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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