Categorias: Opinião

Devemos considerar que ao sermos cruéis com outros animais podemos ser cruéis com humanos?

Imagem: MFA

Devemos considerar que ao sermos cruéis com outros animais podemos ser cruéis com humanos? Claro que é uma forma de apelar ao interesse humano quando as pessoas não se importam com animais não humanos, já que ninguém pode dizer que todo mundo pode ser tocado pela crueldade com os animais, por mais visceral que seja nessa relação arbitrária que estabelecemos com eles.

Mas, mesmo quando alguém não gosta de animais, já que não é imprescindível apreciá-los, por que não considerar que causar mal evitável a um animal é errado e deve ser evitado porque o animal jamais desejaria esse mal? Afinal, se o animal tem seus próprios interesses, porque satisfeito ele ficaria em ser privado deles?

A ideia do fazer mal ao não humano como em conexão com o fazer mal ao ser humano é não pensar no animal não humano, mas pensar no que pode acontecer após o mal feito ao não humano. Assim, o que importa não é o impacto para tal animal, mas que problema isso pode trazer para as relações humanas.

Logo o animal está no segundo plano, e se é pensado é pelo que prejudicá-lo seria prejudicar um ser humano. Quantas vezes ouvimos falar em assassinos que fizeram mal a pequenos animais antes de fazê-lo aos humanos? Não é perpetuar o excepcionalismo humano dizer que esse mal contra o não humano deve ser evitado pelo que resultou como mal ao ser humano?

E se não tivesse chegado ao ser humano, estaria tudo bem? O mal arbitrário que não atinge nossa condição humana, que não nos causa dor ou nos priva da vida pode ter continuidade? Esse tipo de discurso não escapa ao antropocentrismo, mesmo quando há uma intenção positiva em mobilizar o outro pelo interesse que lhe falta em relação a um animal que lhe é irrelevante enquanto indivíduo a não ser subjugado.

Ao longo da história, muitos abordaram a questão do “embrutecimento humano” a partir da normalização do mal causado aos animais. Mas por que não deixar de pensar no “embrutecimento” como execrável e terrível somente pelo temor de seu impacto como violência contra humanos?

Leia também “Uma crueldade não é crueldade por não ser vista como crueldade“? e “Consumir animais não permite a crueldade?

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

Posts Recentes

Uma crítica ao “veganismo de mercado” a partir do pensamento de Habermas

Estudado em escolas de comunicação social do mundo todo e falecido recentemente, o filósofo e…

3 semanas ago

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal?

Foi o fator econômico que acabou com a escravidão e levará à libertação animal? Há…

1 mês ago

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos?

O que comemoramos quando mais animais são mortos e consumidos? Em 2024, o Brasil bateu…

1 mês ago

O consumo humano transforma animais em prisioneiros de seus próprios corpos

A prisão é o corpo: além do matadouro O consumo humano transforma animais em prisioneiros…

2 meses ago

Animais, pela ética do amor ou do cuidado?

Amor ou justiça: por que a ética do cuidado é mais eficaz A premissa de…

2 meses ago

Por que não é uma boa ideia usar o termo “feito de plantas”

Pode parecer coerente usar o termo “feito de plantas” em relação a alimentos ou pratos…

2 meses ago